Para ler do começo: 01-05 06-12 13-14 15-19 20-25 25-29 30-36 37-41 42-45 46-52 53-62 63-67 68-73 74-79
A madrugada longe da estranha proteção de Lola me apavoraria, não estivesse eu, Rebeca Sertão e Silva, de posse de um nome e da hesitante ambição de encontrar aquela que, bem ou mal, eu ainda tinha como avó. E eis que com minha primeira possessão surge o medo. Mesmo sem real possibilidade de o papel me escapulir, certifiquei-me de que meu bolso ainda o continha. Reli a certidão, cuidando de memorizar o nome do cartório. Se nos três quilômetros que me separavam dos domínios de vó Rebeca, algum vagabundo me furtasse o documento, eu saberia onde este fora lavrado. Facilmente obteria uma segunda via. Grandessíssima bobagem! Além de mim, quem mais se interessaria pelo desbotado pedaço de papel? A paranóica conferência ao menos esclareceu porque eu não encontrara o bendito registro. Minha busca cobrira os cartórios da capital, mas eu não tivera o ânimo de incluir toda a região metropolitana. Ponto para o sádico destino, que plantou o meu registro justo no município de Caucaia! Nem o endereço do cartório, nem o meu marasmo vinham mais ao caso. O que eu precisava era saber o que buscar na casa da bruxa. Nada demais. Eu carecia apenas de encontrá-la e de explicar o muito que entendi. Quem sabe até agradecer-lhe por me por pra fora de casa. Isso não, nem pensar! Nem com a Morte ameaçando me incluir na excursão de vó Rebeca rumo ao inferno! Voar baixo na deserta avenida Beira-mar era o que melhor cabia ao êxtase de um coração disposto a convencer o demônio a esquecer a bruxa por aqui. Ir-se-ia despreocupado. De gosto eu assumiria a tarefa de infernizá-la.
» Ficou doida de fazer caminhada uma hora dessas, menina?«
» Que susto, Daniel! Quer me matar?«
» Onde é que você passou a noite, mocinha?«
» Ficou doida de fazer caminhada uma hora dessas, menina?«
» Que susto, Daniel! Quer me matar?«
» Onde é que você passou a noite, mocinha?«
Normalmente, eu responderia algo do porte de 'não é da sua conta', mas havia resposta mais chocante:
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» Num puteiro, e você?«
Daniel acostou o carro no calçadão.
» Entra aqui, sua louca!«
Eu me aproximei do automóvel. Notei uma belíssima mulher no banco do passageiro. Captando minha irritação, Daniel me apresentou a acompanhante.
» Essa é a Mariana.«
» A sua namorada sabe que você está passeando com essa daí?« - ataquei.
» A Mariana é a minha namorada.«
» Sei... A secretária. Ou já seria outra?«
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Ao contrário de Mariana, Daniel não ignorou minha alusão ao telefonema do dia anterior:
» Foi você quem me ligou ontem, não foi?«
» Liguei? Não lembro.«
Retomei a caminhada em passo mais lento que o habitual. Daniel me seguiu no carro.
» Anda, Neta! Deixa de ser cabeça-dura, entra aqui!«
» Daniel, você pensa que eu não detectei o seu hálito etílico?« (pausa) » Sabia que o seu namoradinho não está em condições de conduzir um veículo automotor, Mariana?«
Daniel não reagiu à minha exprobação:
» Eu não vou deixar você sozinha na rua às três da manhã. Entra aí!«
» Ah, vai! O seu compromisso é com a Mariana aí ao lado. Trate de levá-la ao seu destino.«
O mancebo finalmente ofereceu à namorada alguma satisfação:
» Ah, vai! O seu compromisso é com a Mariana aí ao lado. Trate de levá-la ao seu destino.«
O mancebo finalmente ofereceu à namorada alguma satisfação:
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» Mariana, essa é a minha vizinha, Neta.«
Parei para cumprimentar a moça:
» Prazer, Mariana! Meu nome não é Neta e eu não moro no prédio de Daniel.«
Senti remorso de desmentir o rapaz. Tentei contornar:
» Eu e o seu namorado já nos beijamos, mas, não se preocupe, não tivemos intercursos sexuais.«
Daniel levou a mão à testa. Eu prossegui:
» Que foi, Daniel? Tô tranquilizando a sua amada. Me diz aqui, ô Mariana, por que é que uma mulher linda como você namora este mosca morta do Daniel?«
» Eu quero só avisar que estou aqui ouvindo tudo...«
» Fica na tua, Daniel, que meu papo agora é com a Mariana!« (pausa) » Minha filha, você não está vendo que o seu namorado está mais preocupado comigo do que com você? No seu lugar, Mariana, eu descia desse carro agora e pegava um táxi.«
Arrodeei o automóvel e abri a porta para que Mariana saísse. A moça entrou no jogo e desceu do carro; eu acenei para um táxi.
» O Daniel, hein, Mariana! Nem pra te pagar uma corrida! Toma, tá aqui o dinheiro do táxi.« - entreguei-lhe os dezoito reais que me restavam. » Espere, onde é que você mora?«
» Na Varjota.«
» Então quinze reais tá de bom tamanho. É preciso economizar, Mariana!« - peguei as moedas de volta.
Mariana me olhou com espanto. Eu a desapoquentei:
Senti remorso de desmentir o rapaz. Tentei contornar:
» Eu e o seu namorado já nos beijamos, mas, não se preocupe, não tivemos intercursos sexuais.«
Daniel levou a mão à testa. Eu prossegui:
» Que foi, Daniel? Tô tranquilizando a sua amada. Me diz aqui, ô Mariana, por que é que uma mulher linda como você namora este mosca morta do Daniel?«
» Eu quero só avisar que estou aqui ouvindo tudo...«
» Fica na tua, Daniel, que meu papo agora é com a Mariana!« (pausa) » Minha filha, você não está vendo que o seu namorado está mais preocupado comigo do que com você? No seu lugar, Mariana, eu descia desse carro agora e pegava um táxi.«
Arrodeei o automóvel e abri a porta para que Mariana saísse. A moça entrou no jogo e desceu do carro; eu acenei para um táxi.
» O Daniel, hein, Mariana! Nem pra te pagar uma corrida! Toma, tá aqui o dinheiro do táxi.« - entreguei-lhe os dezoito reais que me restavam. » Espere, onde é que você mora?«
» Na Varjota.«
» Então quinze reais tá de bom tamanho. É preciso economizar, Mariana!« - peguei as moedas de volta.
Mariana me olhou com espanto. Eu a desapoquentei:
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» Não precisa me agradecer, minha filha! Deus há de me dar a recompensa.«
A moça entrou no táxi.
» Que palhaçada foi essa agora?
» Ora Daniel, muito simples: a moça estava de saco cheio de você e só precisava de um empurrãozinho pra largá-lo de vez.«
» Mas você é muito petulante, mesmo!
» E você, um... Bunda-mole!«
» Quem desdenha quer comprar.«
» Já comprei. Dezoito, minto, quize reais.«
A moça entrou no táxi.
» Que palhaçada foi essa agora?
» Ora Daniel, muito simples: a moça estava de saco cheio de você e só precisava de um empurrãozinho pra largá-lo de vez.«
» Mas você é muito petulante, mesmo!
» E você, um... Bunda-mole!«
» Quem desdenha quer comprar.«
» Já comprei. Dezoito, minto, quize reais.«
Daniel riu.
» Anda, entra no carro!«
» Não, obrigada.«
Fechei a porta e voltei ao calçadão.
» Vamos, Neta!«
Mostrei-lhe meu registro de nascimento.
» Você achou sua certidão, Neta?«
» Onde é que você viu 'Neta' aqui? Re-be-ca. Sabe ler não, rapaz?«
» Anda, Rebeca, deixa de ser teimosa e entra no carro.«
» Não.«
» Não.«
Após estacionar o veículo no outro lado da avenida, Daniel me alcançou no calçadão. Tentou por o braço por sobre meu ombro, mas o afastei.
» Você não parece muito sentido para alguém que acabou de perder a namorada.«
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» Eu já estava doido pra acabar esse namoro.«
» E por que não acabou?«
» E por que não acabou?«
(silêncio)
» Eu sei o porquê! Você é um covarde, Daniel, como covardes são todos os homens. Por que você não vai se casar com a sua irmã, ter um caso com um travesti, ou pular da janela do seu apartamento?«
» Neta, digo, Rebeca, você usou alguma droga?«
» É isso mesmo, Daniel! Você vai pros quintos dos infernos e eu vou dissimular e enganar, como bem fazem todas as mulheres.«
Dito isto, me esvaí em prantos. Foi a deixa para Daniel me abraçar por um tempo que me pareceu infinito.
» Neta, digo, Rebeca, você usou alguma droga?«
» É isso mesmo, Daniel! Você vai pros quintos dos infernos e eu vou dissimular e enganar, como bem fazem todas as mulheres.«
Dito isto, me esvaí em prantos. Foi a deixa para Daniel me abraçar por um tempo que me pareceu infinito.
Eventualmente o choro cessou:
» Se você disser pra alguém que me viu chorando, eu te mato, ouviu?«
» Se você disser pra alguém que me viu chorando, eu te mato, ouviu?«
Enxuguei as lágrimas.
Daniel achou graça.
» É verdade que vó Rebeca tá no leito de morte?«
» Tô sabendo de nada não.«
» Sabia que era mentira da Maria! A bruxa velha não morre nunca.« (pausa) » O que você bebeu, Daniel?«
» Duas cervejas.«
» Dane-se a sua habilitação! Traz o carro, que eu quero chegar logo no prédio. Preciso que Maria me leia um documento em alto em bom som.«
» É verdade que vó Rebeca tá no leito de morte?«
» Tô sabendo de nada não.«
» Sabia que era mentira da Maria! A bruxa velha não morre nunca.« (pausa) » O que você bebeu, Daniel?«
» Duas cervejas.«
» Dane-se a sua habilitação! Traz o carro, que eu quero chegar logo no prédio. Preciso que Maria me leia um documento em alto em bom som.«
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