Domingo, Janeiro 22, 2012

Para ler do começo:  01-05  06-12  13-14  15-19  20-25  25-29  30-36  37-41  42-45  46-52  53-62  63-67  68-73 74-79


A madrugada longe da estranha proteção de Lola me apavoraria, não estivesse eu, Rebeca Sertão e Silva, de posse de um nome e da hesitante ambição de encontrar aquela que, bem ou mal, eu ainda tinha como avó. E eis que com minha primeira possessão surge o medo. Mesmo sem real possibilidade de o papel me escapulir, certifiquei-me de que meu bolso ainda o continha. Reli a certidão, cuidando de memorizar o nome do cartório. Se nos três quilômetros que me separavam dos domínios de vó Rebeca, algum vagabundo me furtasse o documento, eu saberia onde este fora lavrado. Facilmente obteria uma segunda via. Grandessíssima bobagem! Além de mim, quem mais se interessaria pelo desbotado pedaço de papel? A paranóica conferência ao menos esclareceu porque eu não encontrara o bendito registro. Minha busca cobrira os cartórios da capital, mas eu não tivera o ânimo de incluir toda a região metropolitana. Ponto para o sádico destino, que plantou o meu registro justo no município de Caucaia! Nem o endereço do cartório, nem o meu marasmo vinham mais ao caso. O que eu precisava era saber o que buscar na casa da bruxa. Nada demais. Eu carecia apenas de encontrá-la e de explicar o muito que entendi. Quem sabe até agradecer-lhe por me por pra fora de casa. Isso não, nem pensar! Nem com a Morte ameaçando me incluir na excursão de vó Rebeca rumo ao inferno! Voar baixo na deserta avenida Beira-mar era o que melhor cabia ao êxtase de um coração disposto a convencer o demônio a esquecer a bruxa por aqui. Ir-se-ia despreocupado. De gosto eu assumiria a tarefa de infernizá-la.

» Ficou doida de fazer caminhada uma hora dessas, menina?«
» Que susto, Daniel! Quer me matar?«
» Onde é que você passou a noite, mocinha?«

Normalmente, eu responderia algo do porte de 'não é da sua conta', mas havia resposta mais chocante:
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» Num puteiro, e você?«

Daniel acostou o carro no calçadão.

» Entra aqui, sua louca!«

Eu me aproximei do automóvel. Notei uma belíssima mulher no banco do passageiro. Captando minha irritação, Daniel me apresentou a acompanhante.

» Essa é a Mariana.«
» A sua namorada sabe que você está passeando com essa daí?« - ataquei.
» A Mariana é a minha namorada.«
» Sei... A secretária. Ou já seria outra?«
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Ao contrário de Mariana, Daniel não ignorou minha alusão ao telefonema do dia anterior:

» Foi você quem me ligou ontem, não foi?«
» Liguei? Não lembro.«

Retomei a caminhada em passo mais lento que o habitual. Daniel me seguiu no carro.

» Anda, Neta! Deixa de ser cabeça-dura, entra aqui!«
» Daniel, você pensa que eu não detectei o seu hálito etílico?« (pausa) » Sabia que o seu namoradinho não está em condições de conduzir um veículo automotor, Mariana?«

Daniel não reagiu à minha exprobação:
 
» Eu não vou deixar você sozinha na rua às três da manhã. Entra aí!«
» Ah, vai! O seu compromisso é com a Mariana aí ao lado. Trate de levá-la ao seu destino.«

O mancebo finalmente ofereceu à namorada alguma satisfação:
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» Mariana, essa é a minha vizinha, Neta.«

Parei para cumprimentar a moça:

» Prazer, Mariana! Meu nome não é Neta e eu não moro no prédio de Daniel.«

Senti remorso de desmentir o rapaz. Tentei contornar:

» Eu e o seu namorado já nos beijamos, mas, não se preocupe, não tivemos intercursos sexuais.«

Daniel levou a mão à testa. Eu prossegui:

» Que foi, Daniel? Tô tranquilizando a sua amada. Me diz aqui, ô Mariana, por que é que uma mulher linda como você namora este mosca morta do Daniel?«
» Eu quero só avisar que estou aqui ouvindo tudo...«
» Fica na tua, Daniel, que meu papo agora é com a Mariana!« (pausa) » Minha filha, você não está vendo que o seu namorado está mais preocupado comigo do que com você? No seu lugar, Mariana, eu descia desse carro agora e pegava um táxi.«

Arrodeei o automóvel e abri a porta para que Mariana saísse. A moça entrou no jogo e desceu do carro; eu acenei para um táxi.

» O Daniel, hein, Mariana! Nem pra te pagar uma corrida! Toma, tá aqui o dinheiro do táxi.« - entreguei-lhe os dezoito reais que me restavam. » Espere, onde é que você mora?«
» Na Varjota.«
» Então quinze reais tá de bom tamanho. É preciso economizar, Mariana!« - peguei as moedas de volta.

Mariana me olhou com espanto. Eu a desapoquentei:
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» Não precisa me agradecer, minha filha! Deus há de me dar a recompensa.«

A moça entrou no táxi.

» Que palhaçada foi essa agora?
» Ora Daniel, muito simples: a moça estava de saco cheio de você e só precisava de um empurrãozinho pra largá-lo de vez.«
» Mas você é muito petulante, mesmo!
» E você, um... Bunda-mole!«
» Quem desdenha quer comprar.«
» Já comprei. Dezoito, minto, quize reais.«

Daniel riu.

» Anda, entra no carro!«
» Não, obrigada.«

Fechei a porta e voltei ao calçadão.

» Vamos, Neta!« 

Mostrei-lhe meu registro de nascimento.

» Você achou sua certidão, Neta?« 
» Onde é que você viu 'Neta' aqui? Re-be-ca. Sabe ler não, rapaz?«
» Anda, Rebeca, deixa de ser teimosa e entra no carro.«
» Não.«

Após estacionar o veículo no outro lado da avenida, Daniel me alcançou no calçadão. Tentou por o braço por sobre meu ombro, mas o afastei.

» Você não parece muito sentido para alguém que acabou de perder a namorada.«
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» Eu já estava doido pra acabar esse namoro.«
» E por que não acabou?« 

(silêncio)

» Eu sei o porquê! Você é um covarde, Daniel, como covardes são todos os homens. Por que você não vai se casar com a sua irmã, ter um caso com um travesti, ou pular da janela do seu apartamento?«
» Neta, digo, Rebeca, você usou alguma droga?«
» É isso mesmo, Daniel! Você vai pros quintos dos infernos e eu vou dissimular e enganar, como bem fazem todas as mulheres.«

Dito isto, me esvaí em prantos. Foi a deixa para Daniel me abraçar por um tempo que me pareceu infinito. 

Eventualmente o choro cessou:

» Se você disser pra alguém que me viu chorando, eu te mato, ouviu?«

Enxuguei as lágrimas. 
Daniel achou graça.

» É verdade que vó Rebeca tá no leito de morte?«
» Tô sabendo de nada não
» Sabia que era mentira da Maria! A bruxa velha não morre nunca.« (pausa) » O que você bebeu, Daniel?«
» Duas cervejas.«
» Dane-se a sua habilitação! Traz o carro, que eu quero chegar logo no prédio. Preciso que Maria me leia um documento em alto em bom som.«
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Domingo, Janeiro 08, 2012

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Acordei intrigada com os seres em meu entorno. Então eu morrera e os urubus já me devoravam a carne?

» Sumam daqui!«

Uma voz forte e decidida espantou o magote de meninos de rua ao meu redor. Inicialmente pensei em vó Rebeca, mas o tom era decididamente masculino. Enquanto me esforçava para identificar a voz do benfeitor, verifiquei os bolsos da calça:

» Droga, me levaram tudo!«
» Celular, cartões de crédito?«
» Vinte reais.« (pausa) » Na verdade, dezoito.«
» Isso lá é dinheiro, criatura!?«
» Quem é você? Meu protetor espiritual?« – arrisquei, ainda sob efeito do sonho.
» Rá – rá – rá ! Sou tu-do menos isso.«

O homem se acocorou à minha frente.

» Você é um travesti! « - o alertei.
» E você é muito observadora.« - ironizou o estranho, acariciando o meu couro cabeludo.
» Tire as mãos de mim!«
» O que é que você está fazendo aqui, menina? A vida na rua não é pra todo mundo não.«

Meu interlocutor era um senhor, ou senhora, de seus sessenta anos. Adornava-se de longas unhas encarnadas e uma carregada maquiagem no rosto. Ignorando o evidente conflito com a cor mulata da pele, ousara tingir os cabelos de amarelo.

» Buu.« - provocou, divertindo-se com meu embasbacamento. » Rá – rá – rá ! Me chamo Lola e você?«

(silêncio)

» Ah, bicha besta! Quer fazer amizade, não? Já vi tudo: Bi-cho do ma-to! Acabou de chegar na cidade grande com a fortuna de quanto mesmo?... Sim! Vinte reais... E perdeu tudo. Tadinha... Tia Lola vai te ajudar, viu?«

Mais uma vez alisou-me o cabelo.
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» Já disse pra não tocar em mim!«
» Braaaaba!« (pausa) »Vou te levar pra minha casa, minha bichinha. Ande, levante daí!«

A casa de Lola, um pequeno sobrado branco, ficava a trezentos metros do aterro. No térreo, além da recepção e de alguns quartos, havia uma escada que dava acesso, acredito, aos demais dormitórios para onde se dirigiam homens acompanhados das moças da casa.

Boa ocasião de fugir dali, mas a curiosidade com o novo ambiente e, sejamos francos, a falta de alternativas boicotaram a aconselhável evasão.

» Isso aqui é um puteiro.« - declarei.
» Ótimo! Não preciso mais nem explicar.«

Lola me conduziu a um dos quartos do térreo.

» Quantos anos você tem?«
» Vinte e cinco.«
» Tudo isso? E por que esse olhar de virgem?«
» Isso não é da sua conta!«
» Você é virgem, garota?«

Dei de ombros.

» Ah, não quer falar? Tudo bem. Vamos fazer um exame físico.«

Lola me sentou numa cadeira e elevou o meu queixo de modo que a lâmpada suspensa ao teto iluminasse bem o meu rosto.

» De onde é que eu te conheço, menina?«

Dei de ombros.

» Que negócio é esse de ficar dando de ombros? Quando eu falar com você, você responda, sua atrevida!« (pausa) » Você é daqui de Fortaleza?«
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Balancei a cabeça em sinal afirmativo.

» Abra a boca.«

Sem muito esforço, Lola dominou minha mandíbula e direcionou minha cavidade oral para a posição de inspeção que lhe pareceu ideal. Nesse momento eu me dei conta de sua corpulência. Na hora do aperreio, todo mundo se apega ao divino. Com o intuito de indicar a um hipotético Deus a excelente oporunidade de me arrebatar, reproduzi mentalmente todas as orações que a muito contragosto aprendi com Maria.

» Dentes bem cuidados.« - atestou Lola. » Você não é cão sem dono, menina.« (pausa) » Cadê seu pai? Cadê sua mãe?«

(silêncio)

Lola insistiu no interrogatório:

» De onde é que eu te conheço?« 

Livrando-se do casaco de malha, anunciou:

» Ah, deve ser bestagem minha! Exame ginecológico. Deita aí.«

Verifiquei uma extensa marca de queimadura em seus membros superiores.

» As cicatrizes? Lembranças do fogo do inferno. Rá – rá – rá! Anda, tira a calça e abre as pernas. E não precisa ficar com medo, que eu não gosto da fruta!«

O argumento me tranquilizou. Obedeci. 

A lâmpada agora iluminava minha genitália.

» Aaaaaah, mas vejam só! Não é que a muchacha vale mais do que a tia Lola pensava? Preço de estréia é mais caro!«- comemorou. »Pode se vestir.«

Alguém bateu à porta.

» Telefone, Lola!«
» Uma hora dessa? Aff...« (pausa) »Tô indo!«
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» A senhorita trate de me esperar aqui bem paradinha, bem bonitinha, bem caladinha. Conheço todos os buracos dessa cidade. Se pegar o beco, eu te acho, compreendeu?«

Quando Lola deixou o recinto, meu ímpeto não foi o de fugir. Sem muita reflexão, voltei às jaculatórias que Maria me ensinara:
Deus por mim, ninguém contra mim. Deus por nós, ninguém contra nós. Cegai, Mãe de Deus, para que os olhos do mal não me alcancem!
Se a casa de vó Rebeca já não era mole. A vida ali não seria fácil. Ou seria... mas não era bem essa a facilidade que eu almejava. Lola logo retornou:

» Boa garota!«

Sentou-se em uma cadeira bem à minha frente.

» Ah, a minha memória, Rebeca!«

Droga! A bruxa da vó Rebeca me localizara.

» Eu sabia que eu te conhecia, garota! Você ainda tem aquele olhar assustado do dia do incêndio.«
» As marcas de queimadura!«
» É, chérie, fogo queima.«

Cuidei de me abster de qualquer responsabilidade:

» O incêndio na casa do Benfica foi coisa da vó Rebeca.«
» Auto lá! Incêndio no meu corpo, meu bem! O fogo se alastrou pela casa acidentalmente.«
» Por que ela colocaria fogo em você?«
» Ci-ú-me!« (pausa) » Joaquim abafou tudo, claro! Era o dono do jornal... Tinha muito a perder se o nosso caso de amor caísse na mídia.«
» Caso de amor? Você e o vô Joaquim? Ah, faça-me o favor!«
» Qual o problema? E que mania é essa de chamar todo mundo de vô e vó? Não vai inventar negócio de vó Lola aqui não, hein!«
» Você está me dizendo, Lola, que o vô Joaquim teve um caso de amor com um travesti?«
» Com "um travesti" não, co-mi-go!«
» Será que estamos falando da mesma pessoa? O nome do filho dele também era Joaquim.«
» O Segundo? Filho de Maria com o... Como é mesmo o nome dele?« (pausa) »Raimundo!«
» O porteiro?«
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» Um namoradinho que Maria arranjou.«
» Deve haver algum engano. O Segundo é filho do vô Joaquim.«
» Que nada! Joaquim gostava de uma fachada. Queria porque queria dizer que tinha um filho.«
» Pera aí! De onde é que você conhece a Maria?«
» Do puteiro do Benfica.«
» Maria já foi prostituta?«
» A pessoa deixa de ser prostituta, médico, advogado? Pode até dizer que deixa, mas não deixa não.«
» Vamos com calma, Lola, que eu agora fiquei confusa. O Joaquim, dono do jornal, marido da Rebeca, era homosexual?«
» Bissexual, eu diria. O que não vinha mais ao caso, já que depois de me conhecer ele se entregou somente aos prazeres do meu corpo.« (pausa) » Quer dizer, isso só até o incêndio. O filho duma égua tinha pavor das minhas cicatrizes. Pois ele não pegou abuso de mim? Fiquei com tanto ódio que inventei que estava com AIDS. Mentirinha! Tinha tanta bicha pegando AIDS... Eu ainda não sabia, mas num é que eu tenho resistência ao Vírus? Benza Deus! Ah, mas o Joaquim ficou apavorado, crente que tinha AIDS também. Rá-rá-rá! É, aqui se faz, aqui se paga! Aquilo era uma besta com pose de intelectual. Pois num é que o filho da puta pirou? Coitado, Deus o tenha! «
» Então o Joaquim segundo não era homossexual?«
» Não que eu saiba. Mexia com negócio de droga, não era? Família complicada aquela ali...«
» Então o bilhete...«
» Que bilhete?«
» Antes de se suicidar, Joaquim Segundo deixou um bilhete. Dizia: ‘Sou gay. Tenho AIDS. A menina não é minha filha.’«
» Sim?«
» Se o Segundo não era gay e a Maria é analfabeta, esse bilhete só pode ter sido escrito pelo vô Joaquim.«
» Epa! Quem disse que a Maria é analfabeta?«
» Como?«
» Ôôôôôôôô biiii-cha sonsa! Sempre se fez de besta pra melhor passar.«
» Você quer me dizer que a Maria não é analfabeta?«
» Mas menina, que conversa! Eu mesma ensinei ela a ler.«
» Por que é que eu devo acreditar no que você me diz?«
» Acredite se quiser, Rebeca!«
» Rebeca é a minha avó!«
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» Eu tenho uma coisa pra você.«

Lola levantou-se e apanhou uma caixa de cima do guarda-roupa. Entre recortes de revista, fotos, panfletos e imagens de santo, pinçou um papel amarelado todo dobrado.

» O que é isso?«
» A sua certidão de nascimento.«

Recuei.

» Por favor, não brinque com este assunto.«
» Não é brincadeira.«



» Por que é que você teria a minha certidão de nascimento?«
» A Maria deixou no Benfica antes de se mudar pra casa da Rebeca. Com o incêndio, muito se perdeu, mas esse bendito papel não.«

Descrente, avaliei a certidão de nascimento de Rebeca Sertão e Silva, nascida em 14 de dezembro de 1986, filha de Joaquim Luar do Sertão e Maria Rodrigues e Silva.

» Rebeca Sertão e Silva.« – li em voz alta. » Então Joaquim era mesmo o meu pai!«
» Segundo o registro... O verdadeiro pai só quem sabe é a Maria. Ou não. Rá-rá-rá. Por falar em Maria, o telefonema era dela.«
» Foi a Maria que ligou?«
» A danada sabe que todas as meninas da rua, bem ou mal, chegam a mim.«
» Você falou que eu estava aqui?«
» Falei? Não lembro.«
» O que ela queria?«
» Ela disse... Meu Deus, eu sou uma santa e vou pro céu! Ela disse que se você aparecesse aqui era pra eu mandar você voltar pra casa, porque...«
» Porque... Fala, Lola!«  
» Tá bom. Mas só vou contar porque a notícia é boa. Rebeca está no leito de morte. Pronto, falei!«
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Sábado, Dezembro 17, 2011

Moçada, ainda não tive tempo de dar sequência ao livro. 
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Já que estou no Brasil, a distração agora é com:
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o sagrado


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Santa ceia
(óleo sobre tela,
125 x 120 cm)
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 e o mundano:
 

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Mulata 
(acrílico sobre tela
75 x 130 cm)
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Domingo, Dezembro 04, 2011

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O elevador se encontrava já à minha espera. Foi em seu interior que pela primeira vez me ocupei do tema que tinha tudo pra ganhar importância num futuro imediato: dinheiro. Afoguei as mãos nos bolsos da calça. Vinte reais. Algo abatida com o valor da soma, cogitei retornar. A casa ainda estava aberta, não? Droga! Não é que bati a porta da rua com toda a força que reunia em meu ser? Um certo orgulho me impediu de voltar e tocar a campanhia. Ainda me perguntei se ele seria primo-irmão da burrice, mas acabei por me nutrir de todo caco de decisão com que me deparei até o portão do condomínio. Raimundo fazia a troca de turno com o porteiro que chegava para assumir o período matutino. A eles dediquei não mais que a discreta periferia de meu campo visual e um costumeiro ‘bom dia’, dessa vez mais em tom de interrogação. Postei-me em frente ao portão, que me foi prontamente aberto. Ganhei a rua. Não consegui me decidir entre a esquerda, a direita e o outro lado da avenida. Percebendo o impasse, os porteiros liberaram o portão para que eu por ele mais uma vez passasse, agora em sentido contrário. O retorno não estava mais em questão. Impossibilitada de voltar ao décimo andar, teria de viver como um dos gatos de rua apadrinhados pelas crianças do condomínio. Bonachona, me espalharia preguiçosa sobre uma folha de papelão e jamais me faltaria leite. Quase ri do absurdo cenário. Não seria agora que as crianças cairiam na minha graça. Ademais, odeio leite! A companhia do porteiro Raimundo, agora também na calçada, pôs fim à quimera. Atos reflexos sempre nos levam por rotas conhecidas. Optei pela esquerda, caminho que me levaria à sede do Diário do Povo, comodamente localizado a três quadras do prédio de vó Rebeca. Na redação, as pessoas me presentearam uma expressão de espanto além da usual. Impressionou-me a rapidez com que o status de sem-teto se torna evidente. Arrependida de não tomar um banho antes de sair de casa, me instalei no fundo da sala dos colunistas. Tenho o costume de escrever em casa, mas as novas circunstâncias conferiram ao gélido escritório uma atmosfera até razoavelmente acolhedora. E se eu fizesse da redação minha nova morada? Teria apenas de mostrar serviço. Primeiramente, aparei as arestas de uma nova crônica sobre a gritante necessidade de reformas do Centro Cultural Dragão do Mar. Terminado o primeiro texto, lancei-me ao próximo e depois ao seguinte. Rabisquei artigos para a semana toda. No cair da noite, o editor-chefe surgiu em minha frente. Em seu punho direito trazia um jornal enrolado como um bastão. Sem cumprimento nem vocativo, se apressou em me comunicar:

- A sua avó me vendeu o jornal.

- Este que você carrega na mão? Ela sempre se interessou por vendas avulsas, não é verdade?

- Este em que estamos.

- Ah, fala sério, Mendes!

- Eu nunca falei tão sério.
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- Por que ela faria isso?

- A Dona Rebeca já tem 85 anos.

- Oitenta e seis. - corrigi.

- É uma idade em que se pensa em sucessão. Aparentemente, ela não dispunha de opções viáveis na família.

Ignorei a última alfinetada.


- O que quer? Os meus parabéns? 


Mendes sorriu. 

Reprimi uma forte ânsia de vômito.


- Parabéns, Mendes! Agora vai, deixa eu terminar só mais um artigo. Eu levo o de amanhã pra sua sala em dez minutos.


- Não precisa. O Diário do Povo dispensa os seus serviços.

- Perdão?


- Estamos modernizando a redação... Contratando profissionais mais capacitados.


Disfarcei o impulso de sair correndo:


- Você está certo disso?


- Jamais estive mais seguro de uma decisão.


- Ok. Então eu quero receber as minhas contas.


- Que contas? Você não tem contrato algum com o jornal.


Era verdade. Vó Rebeca não pagava salário oficial pelos meus serviços.


- Mas eu preciso do dinheiro, Mendes!


- Sinto muito. 


Tomado por um prazer irrefutável, ele me entregou o jornal que até então segurava, símbolo da proposta de uma nova atividade:


- Temos vagas no setor de vendas avulsas.

Aqui introduzi uma exigência algo inusitada:


- Eu tenho direito a um telefonema.


A alma de inspetor de polícia do Mendes o fez entrar no jogo. Não é que ele me ofereceu o seu telefone celular!?

Disquei o número de Daniel, único que sabia de cor.
 
Uma mulher atendeu:


- Alô ?


- Eu queria falar com Daniel.


- Quem gostaria?


(Detesto essa pergunta.)


- Quem está falando? – devolvi.


- A namorada dele. (silêncio) Quem fala? – retrucou a fêmea, levemente aborrecida.


- A maior das idiotas. – concluí, encerrando a ligação.
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Terminado o abstruso telefonema, voltei a atenção ao canalha do Mendes - por um ínterim completamente apagado de minha consciência. Ele me observava com interesse. Ponderei cuspir a sua cara, mas sabe lá se não precisaria do emprego de jornaleira num futuro próximo... Decidida a deixar pelo menos essa porta aberta, serenamente lhe devolvi o telefone.



- Obrigada, Mendes.


Ele sorriu.


A ânsia de vômito se tornara uma resposta-padrão ao seu indigesto sorriso.


Sem a menor noção de por onde seguir a partir dali, deixei a sala.  
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Tive de retornar. 

Esquecera de mencionar algo deveras importante:


-  Você é um grande filho da puta, Mendes.


Que a porra da porta se fechasse de vez! Antes eu venderia o jornal do concorrente.

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Às 18:30 estava eu na rua outra vez. 
Atravessei a avenida. Sentei na areia da praia e recaptulei: Além do pôr-do-sol, eu perdera também o lar, os poucos amigos e o emprego. Cheguei a possuir algum deles? O pensamento não só dizimou a sensação de derrota como também me libertou de uma ridícula ilusão. Então nada mudara. Sem lenço nem documento perambulei por todo o sempre. Agora o céu, o mar, as estrelas e a fome, que justo neste filosófico instante apertou o estômago, me fariam companhia. Eu poderia até tentar dar as costas ao caos urbano, mas a cidade cedo ou tarde me devoraria. Voltei ao calçadão. Ponderei um bocado antes de trocar dois preciosos reais por um salgado e um copo de suco. A aquisição me deixou contente. Dois reais a cada dia e os dez primeiros estariam garantidos. O absurdo do cálculo me alertou; precisava desesperadamente de um trabalho. Devorei o lanche. O afago da comida me levou à imaginação das circunstâncias em que eliminaria minhas excretas. Independentemente da indigestão de algumas de minhas frouxas associações mentais, banheiro na rua é difícil. Que falta de consideração com os moradores a céu aberto! Decidi enfrentar um leão de cada vez. Se a fisiologia assim o permitisse, primeiro encontraria um trabalho, depois consideraria a higiene pessoal. Inicialmente tentei restringir a busca pelo campo de atuação que mais me agradaria. Entre os serviços oferecidos no local, o trabalho num restaurante me pareceu adequado para alguém com relativo nível cultural. Após vinte infrutíferas tentativas, revi a estratégia. Não estava em condições de rejeitar outras oportunidades profissionais. Como o prédio do jornal era mais para essa ponta da avenida, voltei ao mercado de peixes e saí entrecortando a Beira-mar por todos os estabelecimentos comerciais. Lá pelo meio do percurso, uma certa loucura acometeu quem até então desfilava orgulhosa de sua obstinação diante das vicissitudes. Oh yes, o desepero abre alas aos fantasmas. Pensei em Daniel. Se o miserável não tivesse decidido perturbar a minha santa paz, eu não chegaria às seis da matina em casa, não flagaria os amassos de Maria e Raimundo, não ouviria de vó Rebeca o disparate de que ela se casou com o seu próprio irmão. Melhor, fossem eles todos minimamente razoáveis, eu seguramente jamais teria nascido. Por diversos meios, me pus a desfazer as muitas teias de confusões da vida. Embora o teórico desenlace de cada uma delas invariavelmente culminasse com o meu desaparecimento, nenhum mudava o fato de eu me encontrar na amarga rua, procurando emprego, teto e solução para toda uma a sorte de problemas existenciais que jamais imaginei enfrentar. A vida nesse cenário e nesses termos era decididamente diferente da que eu observava da janela do décimo andar. Parei para contemplar os arranha-céus. Um cidadão com um carrinho de coco assobiou para eu liberar a passagem. Atendida a solicitação, respirei fundo antes de pedir emprego numa banca de revista. Também antes de todas as demais ocasiões em que abordei os comerciantes da avenida. As reações variavam. As pessoas me sugeriam voltar um outro dia, tentavam me explicar como emprego andava difícil ou apenas balançavam a cabeça solidariamente desoladas com a negativa. Pelo compadecimento de todos os abordados, diria que o reponsável pelo desenho da vida fez do trabalho uma de suas peças essenciais. 
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Chegando ao aterro da Praia de Iracema, tirei as sandálias que me maltratavam os pés. A areia me ofereceu um remanso em meio à selva de pedra. Os lobos e as feras, pensei, variavam de acordo com o lugar do peão no tabuleiro. Se no meu mundinho de até então o inimigo era vó Rebeca; agora eu tinha de me ver com a cidade, a solidão e sabe lá... a chuva? Quis temer também os meninos perdidos da beira-mar e toda a marginalidade que apavora os mais abastados. Rá! Sem eira nem beira, tais medos não mais me eram de direito.  Para não dizer que só havia flores na exclusão social, voltei, como de costume, a remoer o absurdo de minha existência. Repassei mentalmente todos os últimos eventos e, muito rapidamente, os de todos os dias até então. Um flashback assim tão vívido, diz-se, acontece momentos antes do falecimento. Mal deitei na areia, voltei a ouvir os estranhos seres de tempos atrás. Seria a danada da morte a me encurralar com suspiros? Precisava dormir.
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- Tenho novidades quanto ao que me pediste.


- A autorização para presenciar o suicídio de Joaquim Segundo?


- Fala baixo. Não convém que solicitações desta natureza se acumulem.


-  Muito obrigada, Julius!


- Não agradeças. O faço apenas porque me parece o único meio de averiguar a questão. 

- Compreendo.

- Cada vez que me voltas com detalhes a respeito desta moça, mais impossível a sua história me parece. Esclareça de uma vez por todas a sua real situação.


- Assim o farei.


- Há uma ressalva. Terás de abdicar do cargo de supervisor estadual.


- Por quê?


- Só se pode conceder tal autorização ao protetor espiritual do ser encarnado em questão.


- Terei de ser o seu anjo-da-guarda?


- Já não tens agido como tal?


- Não exatamente. (pausa) Ela sumiu.

(silêncio)
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- Aguardo a explanação.


- Rebeca a expulsou de casa.


- Nós havíamos combinado que a moça voltaria imediatamente ao plano espiritual!


- Imediatamente?


- Eurípedes!
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- Só mesmo razões puramente biológicas ou péssimos hábitos para acelerar o processo de destruição da matéria. Se a criatura não é dada a vícios ou excessos, de que recurso este pobre servo do Senhor dispõe?

- Bem sabes que há muitos possíveis desfechos.

- Uma morte acidental, violenta, quem sabe? Perdoa-me; não me sirvo de tais meios.

- Não distorças minhas palavras. Diz-me, o que aconteceu à pobre moça.

- Avançou o entendimento de algumas questões familiares, experimentou um envolvimento amoroso e ganhou o mundo.

- Influenciaste a sua sorte.

- Imagina!

- Confessa.

- Apenas cuidei para que os já iminentes eventos se desenrolassem com suavidade.

- Citaste um envolvimento amoroso. Há possibilidade de gravidez?

- Não sei.

- Como não sabes?

- Não é porque podemos estar em todos os lugares que devemos perder a discrição.

- Trata de localizá-la. Em caso de gravidez, precisamos avaliar as consequências da sua perda para a criaturinha.

- Julius, eu não quero presenciar o suicídio.

- Mas o que é isto agora? Mudaste idéia apenas para preservar o teu cargo?

- Não me interpretes mal. (pausa) Permite-me concentrar meus esforços em localizar esta moça.

- Façamos disto: Tens um dia terrestre para encontrá-la, esclarecer sua origem e resgatar seu registro. Se falhares, entregarás o teu posto. Eu mesmo assumirei o caso.

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