Viva Cazuza!

Meu avô sempre arranja o jornal do dia anterior com os vizinhos. Pelo aspecto impecável das folhas, posso inferir que eles nunca abrem o folhetim. Enquanto não crio cara-de-pau suficiente para propor que o jornal venha direto aqui pra casa, vou continuar lendo, alegre e satisfeita, o meu jornal de ontem com notícias de anteontem. Hoje o jornal trazia entrevistas e críticas sobre Cazuza. Tudo por causa do filme, a que mais tarde assisti, sobre a vida e relação do cantor com os Barões. O roteiro baseia-se no livro Só as Mães são Felizes, escrito por sua mãe. Li esse livro quando tinha uns dezesseis anos e era insuportavelmente “adulta”. Na época achei Cazuza um rebelde sem propósito e fiquei morrendo de pena da Lucinha, imaginando que um filho assim deveria ser um problemão. Quatro anos depois, com uma visão menos radical do mundo, consigo enxergar a beleza e a força de Cazuza. Na entrevista do jornal, o diretor do filme discorria, apaixonado, sobre a intensidade da vida do cantor, sobre sua entrega às paixões, sobre como ele parecia antever a brevidade de sua existência e assim torná-la incrível. Falava que Cazuza não planejou compor, levar a vida de modo louco nem se transformar em mito. Tudo simplesmente aconteceu. Assistindo ao filme, é impossível não se encantar com o inebriante Cazuza interpretado por Daniel de Oliveira. Mais impossível é, aos vinte anos e debruçada sobre o capítulo de pancreatite aguda do manual de gastroenterologia da Escola Paulista de Medicina, não perguntar: o que diabos estou fazendo com a minha vida? Não, eu não sou bissexual, não canto, não cheiro, não fumo, não tenho problemas com a polícia, não escrevo letras definitivas, não, não sou Cazuza. Não penso que a sua vida tenha sido a ideal nem que exista uma vida ideal. Embora eu ache muito bonito recomendar que se viva cada instante como se fosse o último, não vejo em tal clichê aplicabilidade. Como bem questionaria o grande Paulinho Moska: o que você faria se só te restasse esse dia? Certamente não o que você está fazendo. Eu não escreveria este texto, você não o leria agora. Façamos todos somente aquilo que quisermos, quando quisermos e enfrentemos o caos! Na real, a maioria das pessoas, para felicidade ou infelicidade global, desrespeita boa parte de seus impulsos; planeja, calcula, renuncia a prazeres em nome de ideais ou convencões. Vez por outra a gente se permite... E é assim que funciona. Aqui acolá, um Cazuza grita que está tudo uma merda, esfrega a sua vida debochada, escancarada e livre em nossa cara, manda a mãe e todo mundo tomar no c... E se vai. Todos iremos! Quem terá sido realmente feliz? Eu? O Cazuza? Vem cá, por que é mesmo que a gente tem de ser feliz? Essa paranóica busca por felicidade e qualidade de vida em tempo integral enche o saco! Há de se ter sempre um pouco de tristeza, um bocadinho de desespero, uma pitada de saudade. Se a felicidade estiver ali grudada o tempo todo, a gente enjoa; fica tudo tom sobre tom demais. Então viva a melancolia! Viva a euforia! Viva o transtorno afetivo bipolar! Viva eu! Viva você! Viva minha mãe que faz aniversário hoje! Viva o vizinho gente boa que paga a assinatura do jornal! Viva o malaca do meu avô! Viva Cazuza!