Essa tal resiliência

Queria assistir a um reality show com os gurus da auto-ajuda, só pra ver como é que os caras vivem, de verdade. Aposto que ia ser um quebra-pau, a maior prova de que é impossível praticar tamanhas bondade, resignação e chatice. São terapeutas disso e daquilo outro, sempre com alguma repetitiva teoria libertadora. Paralela à cultura do corpo, surge então a obsessiva labuta da alma. Numa época em que tudo na vida de repente ficou muito complicado, seres humano-birutas – incapazes de enxergar além do próprio umbigo – resolvem aprofundar-se no autoconhecimento, evoluir! Bem fruto desse tempo é o texto que a mim chegou, tratando sobre resiliência. A palavra vem, pra variar, do latim “resilio”, voltar ao estado natural. As ciências humanas tentam explicar melhor o que a definição já faz com perfeição: é a capacidade de um indivíduo agir de modo são num ambiente insano, de sobrepor-se e construir-se positivamente frente às adversidades. Séculos atrás, poder-se-ia chamar bravura, coragem; mais recentemente, equilíbrio, sabedoria; hoje, querem me convencer de que só atende por resiliência! Para questões de sempre, a vã tentativa de maquiar com “novos” rótulos nossa trajetória cíclica. O velho truque de buscar lá no latim um termo em desuso e vender como descoberta saída do forno. Deixando de lado a antipatia, enquanto concluía não pertencer aos 20% da população mundial resiliente - não me perguntem como se chegou a tal estatística - o artigo seguia com as impraticáveis regras práticas para não se abalar tanto diante das dificuldades, as bizarras seis habilidades para desenvolver sua resiliência e até as invasivas Frases para colar na porta da geladeira. Desculpem, mas tenho que transcrever a intragável "Receita para começar bem o dia". Aí vai um trecho: "Não levante de manhã e pense que você gostaria de ficar na cama, que está chovendo e o dia não será bom... Cuidado com o primeiro pensamento pela manhã. Cuidado com todos os pensamentos durante o dia..." Que pensamento da manhã? Permanecer de olhos abertos, me espreguiçar, levantar da cama, encarar a água fria guardam suficiente complexidade. Cuidar dos pensamentos durante o dia, francamente! Lutar para que as palavras saiam mais ou menos articuladas e no contexto adequado já me cria grande confusão! Para finalizar a resiliente leitura, o enigmático comentário da psicóloga Fulana de Tal: alguém que levanta todos os dias, faz uma maquiagem, uma bela “pintura no rosto”, volta para casa, tira a maquiagem, enfim, repete esse ritual todos os dias, é muito capacitada. A mulher só tem de crer nisso (sic). Se alguém entender, por favor, nem me explique!