Sinto muito!


Tudo bem que aqui acolá a gente vacile, diga uma tremenda besteira, aja um tanto quanto inconvenientemente, mas essa sexta-feira, extrapolei. Há meses tento integrar um grupo de pesquisa em células-tronco. Ao ligar para o professor-orientador, a fim de confirmar a reunião semanal, obtive como resposta: Hoje não vai haver, porque estou num enterro. Um familiar meu faleceu. Eis a deixa para que, na seqüência, eu estrague a conversa e, obviamente, qualquer possível impressão favorável a meu respeito. Opto por exprimir total incapacidade de me compadecer com o sofrimento alheio, verbalizando um pálido, imbecil, injustificável e totalmente fora de contexto Ah, tá ótimo!. Para piorar a situação, boa mesmo só no infeliz comentário, faltou apenas uma sarcástica risada, bem ao estilo eu mesma encomendei o defunto. Conquanto imaginar piores reações ajude, todas as infinitamente melhores teimam em perturbar. Até mesmo desligar o telefone, valendo-me, a posteriori, de problemas com a linha, revelaria mais sensatez. Sensata, eu? Como brilhantemente elucidou Dona Lúcia, que trabalha aqui em casa: se fosse ao meno: sinto muito, meus pêsames.... Infelizmente, aos tropeaços passados resta somente o cuidado de não piorá-los. Eu não queria dizer tá ótimo! Na verdade, não desejava dizer absolutamente nada. Nem queria ter ligado. Quem sonha falar com alguém direto de um funeral? Não gosto de tais cerimônias. Em enterros, não digo nem meus pêsames. Entro taciturna e saio ainda mais calada, maquinando, sem sucesso, um meio de acrescentar algo além da presença. Ao telefone é ainda pior; não há gesto, tapinha nas costas nem expressão facial para ajudar. Algo adequado há de ser dito, e logo, ainda mais se a ligação é para celular. Voltando ao enterro do familiar de meu ex-futuro-orientador: prefiro acreditar no falecimento de um cunhado odiado, com uma íntima aprovação de meu inoportuno comentário por parte do docente. Pai, mãe, irmão, tio, tia são entidades próprias, familiar meu cabe perfeitamente a um agregado. Há outra racionalização possível: a perturbação decorrente da perda de um ente querido o impediu de ouvir além do ... Pensei ainda numa outra, falha somente por questionar o juízo de minhas faculdades mentais: será que eu disse isso mesmo? Subterfúgios defensivos do ego à parte, sinalizando que enquanto há vida há esperança, outra colocação de péssimo gosto, ao fim da conversa, o professor concluiu: mas próxima sexta tem reunião. De cara lisa, coração aberto e elaborado raciocínio  antes da emissão de qualquer som, lá estarei! Quando eu for dessa para não sei onde, poupem o constrangimento das pessoas que precisarem falar com vocês ao telefone; poupem vocês mesmos. Esqueçam essa história de enterro. Vida sem cerimônia, morte idem! Já pensou? Quando alguém sentir falta: poisé, mor-reu! Até lá, fico com a sugestão da Dona Lúcia. Elejo o óbvio sinto muito como expressão verbal-padrão para funerais.