Tudo desigual

Estávamos lá: pai, mãe e dois dos filhos. O mais novo já goza de suficiente autonomia para decidir não ir à praia com a família. Sempre optamos pela barraca O Veleiro, vizinha àquela onde mataram e enterraram os portugueses (sádica, porém única referência de que disponho). Freqüentar essa barraca é uma questão resolvida desde sempre e ninguém está muito a fim de mudar. É território já conquistado, sabe? O que se segue é a programação oficial da praia: garantir uma barraquinha, andar na beira do mar, banhar-se nas verdes águas dessa parte do atlântico, tirar o sal, comer caranguejo, despachar os ambulantes, almoçar peixe com baião e batata frita, pagar a conta, enviar o pai na missão abrir o carro, esperar o possante esfriar, bater os pés cheios de areia e voltar para casa. Entre pagar a conta e abrir o carro, concentro todos os sentidos na mesa ao lado. Três crianças divertem-se com seis pauzinhos de quebrar caranguejo. Em pouco tempo, o mais criativo inventa cinco brincadeiras diferentes. O moleque simula um pega-varetas e eu me deleito com sua tamanha capacidade de imersão. Como alguém pode inventar tanta coisa para fazer com pedaços de madeira? Minha mente, já pela terceira década de uso, se indigna de não mais elaborar alternativa outra além de quebrar as patas de um crustáceo. Então, o mentor intelectual dá breves instruções aos companheiros, ergue-se e vai receber dinheiro de um motorista de saída. O mais brilhante é justo o menino que ganha trocados por olhar os automóveis. De boquiaberta passo a desolada. Os dois ultrajovens clientes da barraca vão estudar, crescer, lutar pelo que aspirarem, se aspirarem. O outro... Bem, para o outro a vida não é tão elementar. Aplicando a atual lógica social, quando adultos, os colegas de brincadeira do guardador de carros sentirão tanta agonia dele, quanto sinto quando alguém joga água no vidro do carro e vem me pedir dinheiro no sinal. É um tormento: não consigo encarar a pessoa, não sei como administrar a situação. Sempre tenho algum dinheiro, às vezes até trocado, só não posso sair distribuindo. Sim, compadeço-me! A desgraça me desperta profundo pesar. Só não concordo em remunerar um trabalho totalmente dispensável! Conviver com a miséria, embora incomparavelmente mais brando que viver na indigência, é inquietante. Mães com filhos atracados à cintura, aleijados, idosos, desempregados, desiludidos de toda sorte ecoam a miséria dos excluídos ao meu ouvido.  Aí vem o pessoal com aquela de que ninguém pode jamais perder a capacidade de se indignar. Poxa! Tudo isso me arrasa, mas se Deus, que é o cara, acha melhor deixar tudo como está, que diabos o mundo ganha com minha indignação? A menos que aprenda a canalizar a chata da indignação para o bem de quem quer que seja, gostaria de perdê-la sim, o mais premente possível! Talvez tudo exista desigual assim por alguma sublime razão muito além da minha rasa capacidade de entender. Por enquanto, garotos criativos vigiam carros e um futuro razoável aguarda crianças bobonas, Einsteins se perdem na lama das favelas e a apática metida a intelectual aqui não sabe como reagir.