Medicina inclusive

Na mais das vezes escrevo porque algo me toca e exige resposta. Pode ser um impessoal saco de feijão preto, um peculiar desconhecido, uma puta contrariedade ou mais um simples fato rotineiro. Nenhum problema, afinal não é a espaçosa “pequenez” cotidiana a encarregada de preencher os dias? Os grandes acontecimentos findam mesmo reunidos em blocos, datados e floreados nos livros de História e no saco cheio dos futuros estudantes. Com destino a completar, me ocupo mesmo é da poeira que me irrita a vista. Houve um tempo em que acreditei numa missão. Bem ao gênero ”Nasci para revolucionar”, Gandhi, Che Guevara e coisa e tal. Desisti. Nenhuma incompatibilidade com o pacifismo ou com a guerrilha, se é que é se compatibilizam as duas correntes. Só caí na real! Não mais me aflige o impacto global da minha existência. Sem diminuir a extraordinária passagem dos dois ícones, hoje não creio nem que recriaram o mundo, nem que eu precise, possa ou deva fazê-lo. Enquanto cada um reformula um pouquinho de si, o coletivo avança três passos, volta dois e meio... Ora pra frente, ora pra trás, assim passam-se os milênios. Por esse blog, transformo parte da inquietação de um restrito universo em prosa. Há um viés. Só escrevo o processo, a dúvida, a provocação. Ainda não relatei nenhum desfecho. Para inaugurar o setor de questões elucidadas: uma feliz conclusão. Gravo preferencialmente a frase mais despretensiosa. Aquela que a pessoa diz e, sem se dar conta, muda tudo. Colada em outro instante, a citação não representa coisa alguma, mas naquele específico, só significa. Almoço corrido desses, ouvi uma. Amigo meu disparou: “Sou muito mais importante pra minha vida do que a Medicina”. Percebem o impacto? Duas entidades distintas e ele próprio como a mais importante. Engasguei! Ao ingressar na faculdade, decidi fazer da Medicina minha vida. Estudar Medicina já é sarna pra se coçar, nela transformar-se é completo absurdo. Ai, ai! Nem fagocitei a Medicina, nem enterrei meus problemas. Consegui converter a curtição de aprender num fardo. O próprio Frodo, carregando aquela droga de anel! Constrangia-me gostar tanto de cinema, de teatro, de pintura... Atraída por tais atividades, cogitava largar tudo e fazer filme, lançar livro, sei lá! Se o estudo não era vital como a respiração, escolhera o afazer errado. Claro que depois de largar a Faculdade, a recém-escritora autografaria meia dúzia de manuscritos para parentes e amigos, pensando: puxa, mas eu devia mesmo era ser médica! Acordei para a incompatibilidade. Jamais englobarei toda a Medicina, assim como a Medicina jamais vai me capturar de todo. Uma não cabe na outra. Hoje, livre da carga de virar ciência, da culpa por múltiplos interesses, bem como das pretensões de salvar o planeta, permito-me esse monte de vontades. Medicina inclusive e SÓ inclusive.