Diversão goela abaixo

Na sexta, munida de carona, de ingresso pro luau da faculdade e do espírito do “vamos nos divertir a qualquer custo, afinal estamos de férias”, ignorei os apelos do corpo exausto, adiei o projeto de entrar em coma por um dia e me mandei pra gandaia. Na festa, não conseguia me animar, o que, por sinal, está cada vez mais difícil nesse tipo de evento. A título de esclarecimento: para quem não me conhece, vivo em sucessivas curtas fases, enfrento freqüentes crises existenciais, revejo diariamente meus conceitos, mordo a língua quase sempre e geralmente adoro o que a princípio rejeito com vigor. Logo, é bem possível que, no próximo fim de semana, me divirta muito numa dessas festas incrivelmente chatas. Funciono assim, um veredicto diferente a cada segundo. Quando escrevo aqui, o mundo já deu umas boas voltas, situação e percepção já mudaram de ângulo. Escrevo um monte de idéia solta, sem censura, sem freio. Aí deixo quieto. Depois ponho um pouco de coerência, aparo os excessos, corrijo um Português. Na releitura, respeito as idéias e encaro o texto considerando apenas seu fraco valor literário. Só então publico. Acho que se refletisse um pouco mais, não postaria coisa alguma, mas como se pensar demais ninguém faz é nada nessa vida, paro de pensar e publico. Depois, claro, acho ridículo, mas aí alguém já leu, já era! Como ia dizendo antes de mudar totalmente de assunto, enjoei das baladas. Aquelas meninas embonecadas, aqueles olhares ansiosos, as propagandas de si mesmo, as filas em banheiros femininos imundos, as conversas em gritos, as bêbadas declarações de amor, as fotos para sites, o dançar, o sorrir, o aparecer... Voltando à festa... Já tinha andado em todas as rodinhas de conhecidos, sem me encontrar em nenhuma. Queria minha cama, meu lençol azul. Para uma situação esdrúxula, uma solução covarde: vamos beber! Não gosto de bebida, não gosto do gosto. Curto o efeito do etanol, as mãos dormentes, a alienação que dá. Quem gosta de beber é meu pai. Ele não bebe muito, não bebe todo dia, mas bebe em casa, na varanda, ali, sozinho. Ele, o whisky - ou melhor, a cana (tempos difíceis esses!) - e o ritual sagrado ou ainda: ele, a cerveja e a mesa de bar. Eu não. Se bebo, é logo, pra me livrar! Então contabilizemos a clássica mistura: mulher, virando mais do que agüenta, de barriga vazia e querendo entrar no clima. Veja bem, me encontrava cercada de amigos queridos e de conhecidos bem bacanas. O problema consistia em ter passado por cima de mim, enfiando diversão goela abaixo. Questões internas! Já estudei os efeitos do álcool, sei que deprime o SNC, que destrói a memória recente, que inibe o córtex frontal, blá blá blá... Mais do que isso, conheço minha já testada e aprovada cota de duas caipirinhas. Passou disso, assumo comportamentos absurdos e passou mais um pouco, durmo. Só sei que, no final da festa, estava eu reunindo todos os guardadores de carro com a nobre missão de achar o meu. Detalhe, os mais atentos devem lembrar que tinha ido de carona, assim, o Golzinho estava muito bem guardado na garagem. Então, o Santa Protetora dos Sem Noção, que no meu caso atende por nome de Marcelle, desfez o esquadrão de busca, me convenceu a procurar o carro no lugar certo e me deixou em casa. Acordei no outro dia às 12h e tudo acabou bem.