Homenzinho azul

Como não agüento esperar, evito chegar cedo aos lugares. Vez por outra me dou mal. Pretendendo assistir à sessão de 19:10h, eu e minha trupe chegamos ao cinema às... 19:10h. Na nossa vez de comprar as entradas, a sessão esgota. Com a piora na conjuntura, seguem-se as intermináveis deliberações, típicas de um grupo com planos noturnos arruinados. Após quase uma hora, elaboramos uma alternativa: vamos a uma creperia aqui perto e voltamos para a sessão de 21:40h. Ligo o carro e, menos de cinqüenta metros depois, um abominável homenzinho azul da Ettusa se aproxima. Nunca entendi essa história de Ettusa, Autarquia Municipal de Trânsito, Prefeitura, Taxa de Lixo... Sei que todas arrancam legalmente (??) dinheiro da população e o empregam de forma misteriosa. Robótico, o guardinha dispara: você cometeu uma infração! Eu o quê? Quanto mais pergunto, mais o agente azul reafirma: você cometeu uma infração! Só a muito custo, o filho da mãe elucida o mistério: esquecera-me de ligar os faróis. Assim, feliz da vida, sujeito-me a transferir 54 reais de minha polpuda fortuna pessoal para os cofres de tão séria, transparente e relevante entidade. O destino do dinheiro? Impossível responder, já que desconheço as atividades da administração municipal. Ah, lembrei uma! Como não canso de repetir, em Fortaleza, onde não há buraco - não se preocupem - a Prefeitura providenciará um. Sim, façamos muitas obras, de preferência, espaçadas ao longo dos quatro anos de gestão. Uma das reformas de fim de mandato ocupa, por longo trecho, uma faixa da Avenida Sargento Hermínio. Outro dia, impedida de qualquer ultrapassagem, integrei o cortejo compulsório de um irritante carro de propaganda política. A zoada ambulante imprimindo ao trânsito seu ronceiro ritmo de vinte quilômetros por hora e eu lutando para reter o juízo na caixola. Não enxergo espacialmente, sou absolutamente desastrosa em termos de baliza, contudo, não represento ameaça alguma ao trânsito. Definitivamente, multa não tenciona instruir! O lance é pegar o motorista no vacilo e arrecadar o máximo dinheiro possível. Se descuidar outra vez, ah, otário!, mais grana em caixa! Educação no trânsito, RA-RA-RA! Outro absurdo é o preço do crepe. Tá certo que depois de se investir 54 contos em mais um buraco da Prefeitura, tudo inflaciona. Ainda assim, aquela película de farinha se perde no estômago e, definitivamente, não vale quinze, vinte reais! Na creperia, optamos por pizza... E para tirar os 54 contos da minha cabeça? Haja teoria do Pior Seria Se Pior Fosse: felicito-me por dispor de carro, de dinheiro para pagar a conta, de amigos como companhia, até de pernas para alcançar os pedais de um automóvel. Felizmente, o pacote - excelente sabor da pizza, aconchego do restaurante e bom papo à mesa - me livra das garras do Jogo do Contente. A noite melhora e, ao final, assistimos a Fahrenheit. Ainda que prefira Tiros em Columbine, por contar com mais capciosas entrevistas de Michael Moore, recomendo o filme. Com hilárias expressões faciais e frases para lá de bizarras, Bush rouba a cena. Ô talento! O mundo melhorará horrores quando o Presidente norte-americano trocar Washington por Hollywood e o trânsito municipal, quando se extinguirem os carros de som, as obras em véspera de eleição e, obviamente, as obscuras guardas de trânsito!