Meu pai

Confrontar-se com os próprios podres dói. Nessas férias, aluguei Os Garotos de Minha Vida. O filme apresenta uma mulher cheia de planos e talentos, cujos percalços a impedem de chegar onde deseja. Como destaca uma brilhante fala do filme, para a referida heroína, tudo sempre acontece só com ela. Deseja todos em seu redor devotados e a postos. Afinal, a vida seria outra se as pessoas não atrapalhassem! Nao gostei de  identificar na moça minha porção cruel: o desprezível impulso de conseguir o que desejo, enquanto todos entendem, respeitam e cooperam. A vida não é bem por aí: eu sei, estou aprendendo! Tenho uma inexplicável ligação espiritual com minha mãe. Desde os incipientes balbucios, pronuncio meu amor por ela. Os primeiros escritos minimamente coesos acham-se nas melosas cartinhas infantis de dia das mães. Com a já propagada desenvoltura verbal feminina, expressamos todos os sentimentos. É público, notório e evidente o quanto nos amamos. Quando minha passagem pela Terra contava pouco mais de um ano, morreu meu pai. Aos quatro, mamãe casou outra vez. Um belo dia, reza a lenda, solicitei ao cônjuge licença para tratá-lo por pai. Essa é uma das “memórias” de infância, que de tanto repetirem a história, a gente assimila como se, de fato, recordasse. Pra mim, ele é meu pai desde sempre! Ontem, ouvi algo que transformou a forma de encarar meu pai. Uma amiga referiu demonstrar seu carinho pelas pessoas agindo de modo prestativo, ajudando-as. Contou o quanto lhe feria o fato de elas não perceberem. Meu Deus! Como não notei? Assim é meu pai: prestativo, presente, gentil, útil. Todo dia pela manhã, agüenta minha má vontade em abandonar a cama, tomar banho, saciar a fome e me arrumar, extrapolando – invariavelmente - o tempo tolerável. Espera com doçura e, incrivelmente, me deixa a tempo na faculdade. É homem para as pequenas grandes ações que ninguém mais faria por mim. Conserta a porta do guarda-roupa, manda arrumar o vídeo-cassete, me tira do prego, cola o brinco, dá um jeito na sandália... Sempre paciente, sem o mais sutil sinal de malgrado. Nunca me negou sum favor sequer. Vez por outra, me pergunto o que se passa pela alma de meu calado pai, o que pensa enquanto espera, como consegue ser assim. Que constante cuidado! Quantas ações de amor! Nunca me levantou a voz, nunca bateu, nunca repreendeu. Não deve ser fácil. Quem não contribuiu com um gameta não pode andar fora da linha: está todo mundo de olho. Como admiro pessoas capazes de preservar, no convívio dos que amam, gentileza e alvura! Auxiliar os demais em suas jornadas traduz-se na mais bela e humilde manifestação de amor. Não sou assim. Nos mais próximos e queridos mais resvalam ferinas críticas e ferrenha implicância. Há anos meu pai demonstra essa lição. Conseguir enxergá-la desencadeou o choro de quem só recebeu e nem se deu conta. Meu pai sempre findava ocultado pelo estreito elo unindo minha mãe e eu. Nunca é tarde! A meu pai declaro então: por aceitar, não só a denominação de pai, como também o denso ônus do intrincado papel, meu eterno agradecimento; por desempenhá-lo com tanta classe, doação e desprendimento, minha profunda admiração; pelas mesmas mágicas e intuitivas razões que me levaram a convocá-lo como pai, meu antigo e intocado amor. Mãe, sem ciúmes, viu?