Olimpíadas

Além dos automóveis, também os computadores não têm me dado folga. O meu resolveu aderir à irritante conspiração do universo contra a narradora em questão. Com o digníssimo fora do ar, não dá pra escrever. É que gosto de escrever na minha tranqueira eletrônica, sentada no chão de meu desleixado quarto. Qualquer outro computador não serve, dá prisão de mente. Acontece que achei no meu e-mail mais uma trapalhada de semanas atrás:

Tempo e espaço: sexta-feira à noite, Calourada da Publicidade. Tema da festa: Olimpíadas. Orientação: fantasiar-se com motivos olímpicos. Fonte da dica: nossa amiga e publicitária-anfitriã.Gosto muito das festas do Centro de Humanidades: festa estranha, gente esquisita, música diversificada e nada de frescura. Cara de universidade, sabe? A gente riu horrores improvisando os trajes, num esforço para não fazer feio diante das criativas vestes dos descolados estudantes de Comunicação Social. Tentem me imaginar com a seguinte composição: agasalho do Colégio Militar, coroa de folhas na cabeça, medalha no peito, um papel, daqueles que os competidores do atletismo usam nas costas, com a inscrição BRA 087 (meu número de guerra no CMF). Sacaram a fantasia? Medalhista olímpica, óbvio! Bom, pelo menos eu achei. Agora, a minha amiga: camisa regata amarela com o símbolo do Banco do Brasil, bermuda azul, sandália transparente (para parecer descalça), tinta branca no rosto forjando protetor solar e óculos cor-de-rosa (cor-de-rosa, por que óculos escuros de noite não dá, né?). Adivinharam? Isso, jogadora de vôlei de praia! Saímos. Pelas ruas, claro, ninguém entendia nada. Ao avistar o Centro de Humanidades, correu pela espinha uma terrível sensação de ingenuidade extrema, de credulidade idiota, de como foi mesmo que caímos nessa? Por que ninguém está fantasiado? Ô suadeira, eita desespero! E agora? Voltar para casa e trocar de roupa? Nem pensar! Na maior dignidade, estacionamos, demos a volta no quarteirão e, sob a supervisão de curiosos olhares, entramos na festa. Para não dizer que não havia mais ninguém no espírito olímpico, na esquina, encontramos um judoca: traje discretíssimo, se comparado à minha coroa de folhas de oliveira genérica ou ao protetor solar noturno da minha amiga! Num misto de resignação e desafio, seguimos até a quadra ao fundo. Aliviou um pouco avistar uma moça com roupa de bailarina. Já ia perguntar porque se vestia como tal em plenas Olimpíadas, mas, graças a Deus, ela acenou com a raquete, livrando-me de mais essa gafe. Ah, tenista, claro! Depois surgiram a equipe do pólo aquático, uma atleta do hipismo, vários escoceses pirados atrapalha-maratonistas-brasileiros... Mal calculando, nem 3% dos presentes trajavam fantasias. Pegamos o caminho mais seguro para a felicidade: percebemo-nos como destaque carnavalesco e passamos a agir como tal. Atingimos o confortabilíssimo grau do Tô nem aí e emplacamos. Com status de medalhista olímpica, assunto era o que não faltava. Conversei com inúmeros desconhecidos e me diverti pra caramba; talvez mais até do que se estivesse em roupas de sexta-feira à noite. Ah, na hora de voltar pra casa, mais um pequeno mimo do universo: algum profissional do furto levou o som do carro. Nao tenho do que reclamar, o cidadao foi gentil o suficiente para deixar o veículo no local. Sim, o grande imã de prejuízos aqui ainda circula motorizada pelas ruas.