No caminho

O setor divino responsável por afastar minha vida do caos reuniu-se e decidiu: baixemos a guarda e vejamos como ela se sai! Deu no que deu. Relevando a dramática carga com que tempero os mais insossos ocorridos, bem como a megalomania de achar que anjos especiais cuidam de cada passo meu, esse conto da carochinha bem que poderia justificar alguns pequenos desastres. Se Deus é mesmo a maior invenção do homem, pouco me importa! Se o Todo Poderoso mora na Terra do Nunca Existiu, ao lado de Papai Noel, Vida Eterna e Coelhinho da Páscoa, sou que nem criança: acredito, espero, mando cartinha, aperreio... Tranqüiliza-me confiar numa infinita companhia, dividir a responsabilidade. Talvez fé se traduza apenas numa eficaz estratégia para lidar com a solidão. Até admito Deus não supervisionar tudo assim tão de perto, mas solta na buraqueira, definitivamente, prefiro acreditar que não estou. Texto retrasado, afirmei não representar ameaça alguma ao trânsito. Nada como uns dias a mais de vida para desbancarem o precipitado aforismo. Encadeie os fatos: falsa segurança de guiar na preferencial, pancada feia e frustrante sensação de não acredito, como é que pode, volta a fita, pelo amor de Deus! Passada uma semana, digerido o prejuízo e reconstruídos os veículos, o acidente até soa como a difundida máxima da vida: de uma hora pra outra, tudo muda! Num segundo você nem nota que dirige; no seguinte, se obriga a assimilar o arraso. Pisei o chão com indignados ares de vítima. Com o carro recém-saído do seguro, apressei-me em definir o responsável. Ao lançar os olhos sobre o asfalto, enxerguei - tarde demais - o berrante PARE, que agora mais parecia: A CULPA É TODA SUA! O que fazer?
Textos extensos, em geral, perdem a graça... O muito tempo sem escrever acumulou teoria barata e inflou um pouco o texto... Sorry!
...Continuando...
Os curiosos gente-boa, que nessas horas se aglomeram feito formiga em torno do açucareiro mal-fechado, sugeriram e eu, a personificação da independência, obedeci: celular e “ Pai, bati o carro!”. O outro jovem motorista fez o mesmo. Um psiquiatra explicou que o homem dispõe de certo número de reações. Quando alguém age do mesmo modo diante das mais diversas circunstâncias, os doutores contam com mais um paciente. Na condição de chorona inveterada e deveras temerosa de me enquadrar num diagnóstico psiquiátrico, defendo que a regra exclua o versátil choro. Afinal, lágrimas combinam com qualquer forte dor ou emoção. Excetuando uma vez que chorei assistindo a Pinóquio, naquela trágica cena da baleia, sempre choro com base em poderoso argumento. Visualizem a cena: dois carros amassados, uma jovem barbeira com a cara toda vermelha de choro e aquele monte de gente em volta. É o maldito ciclo da fragilidade emocional: você chora e fica puta por que está chorando; aí já arranjou outro motivo para chorar, num maldito feedback positivo! Eu até parecia a vítima: as pessoas me consolando; o rapaz tentando puxar conversa; a mãe dele me entregando o panfleto de seu salão de beleza, onde qualquer serviço sai por apenas R$4,99. Teve até o chavão de uma alma bem-intencionada: só sabe dirigir quem já bateu o carro! Pois que nunca aprendesse, ora bolas! Com irresponsabilidade e prejuízo inteiramente meus, fluiu fácil o acordo. Alguns até saíram no lucro: o mecânico, o sucateiro, o proprietário da loja de autopeças, até o dono do outro carro, que, escancaradamente, aproveitou o ensejo para dar uma recauchutada legal na máquina. Não tencionava beneficiar nenhum dos quatro e achei tudo uma droga! Poderia ser pior? Ah, essa vida poderia sempre tanta coisa que implicaria em outros tantos alternativos desfechos... No caminho de Drummond tinha uma pedra, no meu, um Fiesta 95, com peças importadas. Poderia ser pior!