Democracia Compulsória

Como manda a cartilha da boa cidadã-politicamente-engajada, tirei título de eleitor aos 16 e, claro, encantei-me pelo utópico comunismo. Atualmente, estou mais para liberalismo-selvagem-declarado, embora a anarquia tenha lá suas chances. O fato é que campanhas para cargos políticos já não me despertam sentimento algum. Adquiri imunidade. Assisto ao importuno diz que me diz, sem sentir absolutamente nada. Custa-me confiar nos candidatos, levá-los a sério. Qual a diferença entre uma prostituta, um pastor evangélico e uma colega de faculdade - em termos de experiência política - de caráter? Como identificar opções viáveis nesse bolo de incógnitas? Ignorando o pacote humano que os acompanha, olho, olho e não opto por nenhum. Quem eleger? Analise os dados disponíveis: rosto, nome, número, jingle, partido, sexo e discurso. Pondere a gravidade dos escândalos, releve as declarações comprometedoras. Acrescente as pesquisas de opinião, a tendência de sua classe social e uma pitada de sexto sentido. Aí faça uma média. Pronto, agora só daqui a quatro anos! Provavelmente, as coisas não estarão muito diferentes, mas até lá, o rodízio de bizarros personagens trará novos aspirantes aos velhos cargos. Não, não vejo graça nessa história e não – obrigada - não estou a fim de participar... Que os irritantes de plantão me chamem de alienada, de desvairada, de socialmente descomprometida: meu voto anda mais barato que dentadura e não é bem a minha cara bancar a entendida! Por ora, em cumprimento ao desejo de não participar desta “democracia" compulsória, tô fora do processo! Angustiada de não conseguir me esquivar das urnas, de não enxergar saída, voto nulo.