Dissabores

Aquela descarga de vaso sanitário que para acionar você precisa enfiar o dedo num botão embutido é uma droga. Não se sabe quem freqüenta o banheiro, a micção se dá praticamente de pé (companheiras de gênero compreenderão) e ainda há de se tatear a porcaria do botão da descarga? A pessoa não lavou a mão nem nada! É um ultraje, um complô contra a higiene! O que é pior: tacar o dedo ali ou contribuir com mais urina para o eterno poço do xixi público? Outra coisa que me irrita é o maldito sinal de três tempos que inventaram de instalar justo no cruzamento da Leste-Oeste com a Filomeno Gomes. Aquele, na altura da Marinha. Ô idéia! Ali era um paraíso: sem engarrafamento, sem pedinte... Já não me empenho em elucidar os desígnios de tão sublime intervenção! Enquanto maldigo o Serviço de Inteligência do Trânsito, invade a arena do semáforo a Guardamirim dos Trocados, que, por sinal, acabou de descobrir os malabares. Aí se intensifica minha zanga! Não especificamente contra a garotada das ruas, mas contra o exorbitante preço da desigualdade social. Ainda na série me-tira-do-sério, outro desprazer: autocomiseração. Gente com pena de si eu não suporto! Quem se propoe a aliviar o desconforto alheio precisa conviver com todo tipo de comportamento, sim eu sei! Estou me diligenciando... mas a pessoa já está lascada e ainda se afunda mais? Assim nao pode, assim não dá! Após atender o primeiro paciente depressivo, descartei a Psiquiatria como especialidade. O.K., depressão é um mal, mas ô moléstia chata! Talvez eu tenha certos problemas em lidar com a melancolia. Talvez não, eu tenho! Daí o meu deboche para com a tristeza. Cada um com a sua emenda, ora! Há muitos outros dissabores e eu até encompridaria a lista se nao arriscasse findar como naqueles fastidiosos e-mails cheios de licoes de vida: você se empolga, se identifica, mas aí percebe que a ladainha não arremata nunca. Ah, também não agüento quando se perde a hora de encerrar as piadas! Para fechar a pequena lista de dissabores: a pergunta-irritante da vez. Todos sabem que moro ao lado do North Shopping. Bom, no começo era ao lado. A empreitada comercial metastizou e atualmente forma uma espécie de L em torno do condomínio. Pois muito bem, as pessoas agora me exigem um prognóstico: “E aí, o North Shopping vai mesmo cair?”. Concordo, o shopping é mazela e oferece um projeto um tanto quanto improvisado. Puxa daqui, puxa de lá... Intimamente sempre acreditei que a construção não passasse da explosão criativa de algum ousado mestre-de-obras. Ainda assim, o shopping é aqui ao lado, não me cobra estacionamento e sempre me foi muito útil. Posso até falar mal do estabelecimento, mas se vierem tripudiar, defendo até a morte! Não estava ligando muito para a polêmica do cai-não-cai, até que minha afilhada veio me chamar para assistir a um filme, com a ressalva: no Iguatemi. Eloqüente, discorreu sobre a superioridade da pipoca, do estofado... Eu acatei a argumentação. Entao a mãe explicou que Bibita estava era apavorada com a idéia de o North Shopping desabar. Não dá mesmo para competir com a astúcia dos oito anos. Eu agüento? Agora vou eu me largar lá para o Iguatemi! Um momento, por favor, eis o meu parecer: o shopping afundará de leve, inclinará sutilmente e ganhará status de Torre de Pisa. Então, toda a gente admirar-se-á das esplêndidas rachaduras, da pitoresca arquitetura; estudiosos de todo o globo dissecarão o fenômeno e... Menos, Lia, menos!