Estou velha, ora!

Segundo minha avó-xará, seu bisavô inglês – sabe-se lá por que cargas d’água – aportou em Paracuru e por lá perpetuou seus genes. Houve uma época em que minha espalhafatosa mente pueril defendeu uma versão um tiquinho mais apimentada que a oficial. A história fornecia indícios suficientes para que imaginasse meu tataravô como um intrépido pirata da coroa britânica. Capitão Sanders, que tal? Achava o máximo ter sangue contraventor inglês nas veias. Mentira? Não, crianças não mentem. Suas verdades só são bem mais apaixonantes. Não há tempo ruim para os pirralhos. Incólumes aos diagnósticos psiquiátricos, moldam a realidade a seu modo. São mesmo sagradas! Um amigo do meu irmão explicou: “Não passei de ano, porque sou muito lento!”. (Por mais que um garoto de catorze anos se autodenomine adolescente, vou continuar citando-o como uma criança, ok?) Taxaram o menino como tal e agora, como lento que é, vai ter mesmo que enfrentar sérias dificuldades escolares. É crueldade podar assim uma criança! Quem sabe por falta de freio, continuo a alimentar pretensiosas lendas. Não minto ao afirmar que descendo de guerreiras tupiniquins! As três famílias que se misturaram pra formar a minha são matriarcais. No cerne, mulheres “duras na queda”, por assim dizer. Cerne que também não escapa ao rigor da idade. Envelhecer não deve ser fácil. Depois dos trinta, o tempo começa a deixar suas cicatrizes. Agora os anos pesam mesmo é ali nos extremos. A diferença é bem mais gritante entre alguém de oitenta e outro de setenta, do que entre um cidadão de meia-idade e um recém-chegado aos quarenta. Há mais de dez anos, minha avó materna submeteu-se a uma cirurgia mal-sucedida de catarata e perdeu a visão. Desde então, não mais distinguia seus traços no espelho. Oftalmologistas apontavam o transplante de córnea como única saída. Quinta-feira passada, pelas mãos do Dr. Germano Andrade e pela dedicação da minha mãe, vovó enfrentou o medo de perder os 5% restantes da vista e operou-se novamente. Voltou a enxergar. Pois a Dona Lirinha não se esquivou de fitar o espelho. Encarou-se. Logo após, sentada na rede e segurando a pele flácida do braço, disparou: Vi minha velhice! Sucintamente, descreveu o trabalho do tempo a desfigurar-lhe por mais de uma década: vi o branco dos meus olhos. Vi minha pele estragada, os cabelos brancos... Eu estou magra, envelhecida! Desde pequena, declaro, toda prosa, que minha avó é uma bruxa. Bruxas são seres espiritualmente poderosos, fortes. Católica fervorosa, ela pede suas graças e é batata! Canal direto com o divino. Se um dia me perguntarem no que acredito, direi: nos poderes da minha avó! Próximo semestre, estudarei Geriatria. Não há o menor problema se mudar de idéia, mas em alguns casos penso que a doença de Alzheimer não passa de mais um lucrativo neologismo. Há de se adicionar mais essa moléstia à lista de doenças a pagar dos aposentados? Certa altura da vida, a mente avança e o corpo retrocede. Depois, também a mente há de involuir. Ontem, minha avó-guerreira-bruxa, Dona Lirinha, 79 anos incríveis, esqueceu meu nome. Mamãe entrou em pânico. Vovó não desmanchou merenda: Esqueci. É sua filha, minha neta... O nome... Depois eu lembro! Com a autenticidade de sempre, arrematou: Estou velha, ora! (Como se dissesse: Me dá licença de esquecer as coisas em paz?). Dou, Dona Lirinha, toda a licença do Mundo! No que depender de meus anseios: anos de toda a licença para senhora nos contagiar com a grandeza e a vitalidade do seu espírito.