Ninguém me ama, ninguém me quer

Após 24 horas de plantões emendados - mais que descanso - queria conversa, barulho, recepção. Dei de cara com a casa vazia. Veio então a tenebrosa imagem do meu almejado futuro de mulher bem-resolvida, independente, acima de qualquer compromisso sério e da maçante rotina doméstica. Imaginei minhas amigas casadas, suas proles... E eu, sem programas no fim-de-semana, sem companhia. Vi ainda meus irmãos construindo seus clãs, meus pais morrendo e eu... Fazendo o quê, Deus do Céu? Apodrecendo, sem ninguém notar. Se ao menos me agradasse criar animais! Apavorada, abri o berreiro. Minha mãe surgiu e eu - após fazê-la jurar não gargalhar nem dizer que já sabia - admiti: Quero me casar... E ter filhos! Claro que ela, abusando de seus maternos poderes, rompeu o tratado: “Eu sempre soube. Rá-rá-rá!”. (Há pessoas para as quais sou absolutamente previsível. Fazer o quê?) Jamais quis casar e procriar, porque não me imaginava na intimidade do lar, nunca acreditei na fidelidade masculina e jamais me considerei capaz de educar um outro ser. Também considerava desnecessário e egoísta povoar ainda mais este Mundo cruel. Mudei de idéia: um ou dois rebentos não vão superlotar o Planeta; estamos todos, em algum grau, fadados ao dia após dia domiciliar e... Há de existir homem fiel. Não? Vou pular esse quesito, senão mudo de idéia outra vez. Continuo incapaz de educar uma pessoa, mas atinei que os pais não se incumbem de tão árdua tarefa. Eles pagam as contas e dão uma boa mãozinha, mas a danada da vida se encarrega de dar as suas palmadas e todo mundo acaba entrando nos eixos... Ou não! Além do mais, gosto de família, da pequenez da vida cotidiana, da subversão da rotina. Em meu desespero (eu surto aqui acolá, quase sempre!) proferi até um dramático “Ninguém me ama, ninguém me quer!”, mas, como não poderia deixar de ser, parei de soluçar e a vida continuou. No dia seguinte, lá estava eu no centro de artesanato, provando, no esquema privacidade zero, uns vestidos manchados de azul: veste por baixo da blusa e por cima da saia; tira a saia; tira a blusa; dá uma olhada no espelho; tira a alça; põe a blusa; põe a saia; tira o vestido; outro? ah, vamos lá, que não está aparecendo nada... E o povo a passar pela barraquinha! Adoro tecidos azuis manchados. Adquiri três vestidos e uma blusa – adivinhem - lindos de tão manchados de azul! Certa altura da prova, a dona da loja acha por bem assuntar minha vida amorosa: “Você tem namorado?”. Não, não houve tempo de me inteirar da discussão: “Não. Segundo ela, ninguém a ama, ninguém a quer!” Mal minha mãe fecha a boca, aparece um cidadão: “Eu quero!”. Foi uma graça... Pense na pessoa toda encabulada aqui! Nem atentei para as falas seguintes. O súbito pretendente saiu do provador para que eu me trocasse e eu não mais o vi. Ok, fui desmentida! Se em todos meus relacionamentos abortados nunca enxerguei perspectiva, agora, quem sabe, os enredos adquiram prognóstico outro além do desencantamento! Se até os quarenta não arranjar ninguém que eu queira também, caso com amigo que não tenha sido retirado para dançar e adoto um moleque! Lá estamos nós a formular saídas estratégicas... Amarrar-se por falta de opção? Não, esquece o plano B! Não, não se trata do início da desesperada caça aos maridos. Apenas não mais condeno a família como possibilidade. Pode até não rolar, mas não por intolerância à idéia. Véu e grinalda ainda são um pouco demais... Cala-te boca!