Visita domiciliar

Eu - que, em termos de terceira idade, só tenho paciência mesmo com as minhas avós (afinal de contas, elas são fantásticas!) - já antevia a aflição em minha passagem pela Geriatria. Como parte da disciplina, cada estudante deve fazer cinco visitas domiciliares a dois idosos de uma comunidade carente. O agente de saúde, nosso guia, alertou: Todos eles são ótimos. Só a da casa da esquina é que arranja confusão com todo mundo. É nervosa, sabe? Cheia de problema. A primeira velhinha a nos receber me pareceu simpática. Assim em meu conceito permaneceu até eu inventar de perguntar se ela  freqüentava alguma igreja, associação ou grupo. Nós e as nossas perguntas perigosas! Eis que a bondosa velhinha revelou-se uma audaz missionária da Assembléia de Deus, insigne pregadora da palavra e, indubitavelmente, repleta da razão divina! Quanto mais lutava para conduzir a conversa de volta ao pacífico universo dos medicamentos, dores e queixas, mais a criatura se certificava da minha necessidade de conversão: Porque se você fosse da Igreja, casava com um homem da Igreja e seria feliz. Eu agüento? Havia ainda a segunda visita. Já desconfiava: o filho-da-mãe do agente de saúde, que não foi nada com a minha cara, me presentearia com o abacaxi do bairro, a tal da mulher-escândalo. Devo merecer! Na casa da esquina, apavorada, conheci a senhora de 71 anos e a sua versão de vida, para lá de árdua. Resumo do drama: o marido pedreiro perdeu, junto com a visão, o trabalho; o filho, desempregado, só se envolve com mulheres alcoólatras; os netos também à sombra de sua aposentadoria vivem. O comprimido diário de Diazepan jamais medirá forças com a pesada carga emocional que carrega. Do balcão da farmácia não sai nem chá de sumiço pra nora alcoólatra, nem pensão regular do INSS. Nesse cenário, apertaram-me o peito a magia de despir um estranho de suas mais profundas angústias e a severa constatação de nada poder fazer a respeito. Não gosto de dar de cara com a pobreza. Até agüento duras imagens em um documentário ou outro. No entanto, sem uma superfície de edição a assegurar certa distância da infeliz realidade, defronto a asfixiante impressão de que minha confortável vida se nutre da miséria alheia. Claro que passo por cima do desconforto. Cruel e honestamente, nem penso em abdicar dos recursos financeiros de que disponho. Já para a grande massa não há espaço destinado a fricotes de classe média pseudo-intelectualizada, nem às filosóficas reflexões acerca do impacto de transitar num bairro de baixa renda. A miséria está ali e não há muito o que pensar. De fato, desconheço a pobreza extrema que impera em diversas localidades de Fortaleza. Assisto a breves flashes de indigência nos semáforos e é só. Abram o olho: em compreender uma mulher tida como louca pela comunidade inexiste sensibilidade aguda ou sublime coração. Embora meu avô também enfrente seus problemas psiquiátricos, tempo algum destinei a ouvi-lo e ajudá-lo. Do contrário, sempre o tomei por um grande estorvo. Não passa mesmo muito tempo sem que lidemos com nossas indecorosas verdades: entendo pessoas que não posso acudir e trato as que ao meu alcance se encontram como se não fossem problemas meus. Talvez haja mais um idoso à espera da minha visita.