O caçula

Tardiamente, percebi em meu irmão do meio (16a) compleição física de homem. Tratei então de não perder a metamorfose do mais novo (13a). Até dia desses, reponsabilizava-me diretamente pela emissão e recebimento da maior parte dos telefonemas da casa. Desde que eu e minha patota arranjamos mais o que fazer, não mais respondo pelos estratosféricos níveis da tarifa telefônica. A dominação do Setor de Comunicações começou pelo interfone: Não, não é o Tales! Taaleees!, mas o campo de atuação do relações públicas da família ultrapassou os limites do condomínio. Telefone agora só toca adivinhem para quem? O solicitado até já aboliu o corriqueiro alô. Seco e direto, otimiza: Que era? Paralelamente, adotou a vestimenta do adolescente rebelde. A fantasia de roqueiro tem direito a penteados bizarros, camisas pretas com nomes em inglês e execráveis adereços. Houve também o namoro relâmpago com uma menina de 25kg, que diariamente ainda grafa o próprio nome nas páginas da agenda do gajo. Minha mais sólida hipótese para o fim do relacionamento é a de que o moleque, num abraço mais entusiasmado, quebrou-lhe uma costela. Ele acena que não. Os recados na agenda atingiram tal monta que nossa mãe se viu obrigada a solicitar, junto à menina, espaço para a comunicação pais e mestres (caramba, isso ainda existe?!). Deliciando-me com os derradeiros instantes de minha superioridade física (ele está a exatos dois dedos do meu tamanho), faço piada e o observo. Garotas da escola, do condomínio e até as serelepes senhoras candidatas ao disputadíssimo posto de sogra o reverenciam. A todo instante, algum expectador da jornada amorosa do mancebo Don Ruan nos relata uma nova conquista. Inescrutável, o pretendido conserva o ar blasé: É? A inquiridora de subjetividades, claro, foi atrás da raiz de tanto assédio. Afinal o cidadão é bonito, mas, encoberto pelos últimos enfeites, afasta-se mais e mais de um aspecto razoável. Eis o grande lance: o moleque não rejeita o afeto alheio e não se obriga a corresponder-lhe. Amor, ele o recebe, simples assim! Deseja direcionar a alguém seu apreço, canalizar todo aquele seu amor reprimido? O Tales não se incomoda, não foge, não acha feio e não ri de você! Contente com os proventos das recentes observações, continuarei a espreitar o comportamento desse peculiar exemplar de caçula-macho. Transbordando primogênita crueldade, aindda hei de me divertir muitíssimo!
P.S.: A divulgação deste texto foi autorizada mediante a seguinte ressalva: Não me fantasio de roqueiro! Sou roqueiro! Então tá!