Eu te amo

Vocês ficam dando corda... Eu escrevo! Agüentem:

 - Eu te amo. (silêncio) Você não vai dizer nada?
- Não.
- Como não?
- Dizer o quê?
- Sei lá... Que me ama também.
- Mas eu não te amo.
- Não? (nitidamente chocado)
- Não, Marcos!
- Então acabou.
- Acabou?
- Rita, eu disse que te amava, mulher!
- Eu ouvi.
- Eu ouvi? Eu te amo não significa nada pra ti?
- Significa que você acha que me ama.
- Acho que te amo? Homem nenhum diria isso se não estivesse absolutamente certo do que está falando.
- Ah Marcos, por favor, estamos juntos há duas semanas!
- E o que importa? Ah, você... Puxa vida, Rita! Quer saber? Você não merece ouvir o que eu te disse!
- Você lá sabe o que é o amor, Marcos! Essas coisas não são assim.
- E como são, me diga?
- Amor leva tempo pra ser construído. Requer mais... Convivência.
- Nós convivemos! Além do mais, já deu pra saber: ou ama ou não ama! Você não ama. É simples!
- Tenha santa paciência! (inspiração profunda) Marcos, (expiração brusca) não vou discutir!
- Não sei se você percebeu, Ri-ti-nha, mas isto aqui é o fim de um relacionamento, com direito a discussão e tudo mais!
- Olha o drama! Já tem gente olhando.
- Dane-se! Rita, eu disse eu te amo, caramba!
- Eu ouvi! (agora também elevando o tom de voz) Qual era a fala seguinte? Eu te amo? Ah, tá! Entendo agora, era a deixa! Marcos, eu também te amo. Satisfeito?
- Não seja ridícula, Rita!
- Olha aqui, Marcos, da próxima vez, me dá as falas da namorada perfeita com antecedência. Assim, ensaio direitinho o diálogo pra te deixar todo contente!
- Não vai ter próxima vez. Não preciso do seu sarcasmo na minha vida!
- Você e essa sua cabeça de sargento tainha, que não suporta a verdade!

Entraram no campo das ofensas pesadas. 
Desconhecendo sórdidos detalhes um do outro, limitaram-se a alfinetar as profissões.

- Tenente! (corrigiu) E qual é a verdade, senhorita manicure mente aberta?
- Sou esteticista, ouviu bem? Es-te-ti-cis-ta. (agora visivelmente irritada) A verdade é que ainda não podemos falar com segurança sobre o que sentimos.
- Ah, não podemos? Você disse claramente: eu-não-te-a-mo!
- Não foi bem assim.
- Rita, você não disse não posso dizer ainda
ou não há evidências suficientes para que me pronuncie quanto às minhas emoções.
- Tá... mas você me acuou, Marcos!
- Agora não adianta voltar atrás!
- Não estou voltando atrás! É que naquela situação, pendi mais para o eu não te amo.
- Pendeu mais? Olha aqui, minha filha, isto aqui não é bolsa de valores!
- É, já vi que não dá pra conversar com você.
- É, não dá!

Ditas todas essas coisas
Foi cada pra um lado

“Dramático”
“Volúvel”

Ainda caminhando em direções opostas:

“Da próxima vez, digo: eu também te amo. Custa nada!”
“Precisava desse papo de amor logo no começo? Espantou a moça, seu idiota!”

A próxima vez ali estava
Bastava dar meia-volta

Ninguém volveu o olhar

Espantaram as íntimas intenções de reconciliação
E sofreram por meses
Mas não telefonaram

Nada

As lições daquele esboço
Em outros amores aplicaram

Talvez um pouco mais de cuidado
Paciência...
Assim tinha de ser

Assim tinha de ser?

O imenso vazio das especulações
Consome a gente
E vira poeira

Dos enlaces
Em cuja causa mortis
Contando, não se acredita
Remanescem confusas lembranças e o desfecho
Truncado

Acabou.
...
Ahn?