Paciente prevenido

É bem verdade que há tempos venho me coçando para voltar a escrever. Hoje um espírito maroto resolveu me tirar o sono. Até apostei num estúpido assalto à geladeira como sonífero - pão com manteiga mentiroso + yogurt enjoado – mas acabei cedendo ao impulso de jogar as caraminholas na rede. Parei de escrever porque entrei numa de que já tinha gente demais dizendo besteira demais. Não mudei de idéia, mas é que, como se diz em cearês brabo: “Parece uma coisa!” Dê-me tempo e brecha, que assunto besta brota e rende. A cabeça já tava ficando pesada, carente de uns trocadilhos para brincar. Como habilmente ameaçam os eloquentes e jovens pedintes: “Eu podia estar matando, eu podia estar roubando...” Eu podia até perambular pela noite a empurrar livretinhos insossos de poesias quadradas e rosas de plástico amarelas aos casais, ou quem sabe infernizar meus contatos, encaminhando intermináveis apresentações de auto-ajuda no powerpoint... Mas não, na maior dignidade, escrevo no blog, que é de periodicidade imprevisível e acesso totalmente voluntário! Volto com uma singela historinha de tarde dessas no ambulatório da Hematologia: Sétima hora de atendimento ininterrupto, as células já em tempos de querra por glicose, paciência indo embora, pensamento insinuando fazer o mesmo e um paciente ainda por atender... Ah, sem prontuário! Num ambulatório especializado da rede pública, paciente sem prontuário é paciente sem diagnóstico. Ainda mais na Hemato, onde as doenças só se definem mesmo após ampla investigação laboratorial. Só tem tu, ó maldita folha em branco, vai tu mesmo! Inspiração profunda, expiração prolongada, boa tarde Seu Fulano e vamos nós: “Infelizmente, por uma razão de ordem maior, nós... nós... – nunca sei ao certo a quem atribuir a incompetência nessa hora ‘Perdemos... eh... não encontramos...uh... O prontuário ainda não chegou... quer dizer ... não desceu ... sabe como é, quando o cabra tá desenganado, a gente já manda logo a papelada pro andar de cima, pra agilizar! Quem precisa de protuário, né mesmo?’
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"O sr. sabe porque o sr. é acompanhado aqui no ambulatório ?"
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"Sei não senhora!"
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Inspira, respira...
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"...mas como sou muito prevenido, pedi pro doutor escrever o nome da doença aqui pra mim."
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Ah! De alma nova, sorrisão no rosto, coração tranqüilo, desdobro o papel.
Segue-se um longo minuto..................... interrompido por um indignado:
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"O que é, doutora? ... O que tá escrito aí?"

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Era eu sem jeito de dizer pro (im)paciente...
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“Sabe ler não, doutora?"
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...O nome da doença:
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AZEITE DE OLIVA
EXTRA VIRGEM
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Como Deus é gozador, mas no fim das contas é pai, a gente acabou descobrindo um outro papel onde de fato se lia “Leucose Linfóide Aguda” e a consulta fluiu dentro dos conformes. Afinal, o que são mesmo os complexos nomes de doença, se não garranchos inintelegíveis de doutores apressados? Rasgado e amassado o Azeite de Oliva, Seu Fulano ganhou novo papel e a gente até treinou: “L.L.A.” Sabe-se lá por onde andará o prontuário na próxima consulta!