Mutum

Ó eu voltando...
... Devagarinho!
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A primeira vez que chorei no cinema foi com a trágica cena da baleia engolindo Gepeto e Pinóquio. Ou terá sido só o Pinóquio? Agora não sei. Não me perguntem o que há de tão dramático nisso, o fato é que passei anos a fio achando baleias bem piores que tubarões (não que isso seja exatamente relevante!). Desde então choro em cinema. A história nem precisa nem ser lá essas coisas. Desencadeou uma epifania, me pegou numa veia hormono-melancólica, pronto! O filme "Mutum" me fez chorar. Talvez porque lembrou minha infância - que ao contrário da do protagonista do filme - não foi no campo, não foi triste e, ok, não teve mesmo nada a ver com a do menino! Vai entender minhas complexas associações... No filme só se tem acesso ao que o moleque vivencia. Ninguém pára muito pra explicar-lhe o que se passa no universo adulto. Então é um tal de ouvir atrás da porta, juntar indícios e tentar desvendar a confusão. Nada é 100% nítido e não há preocupação em assuntar o que ele acha da vida. Mesmo que, ao contrário do garoto do filme, eu não precisasse confabular pra esboçar uma teoria sobre o mundo dos adultos (a Liazinha era irritantemente esclarecida a respeito de tudo e de todos) Mutum me transportou para o meu universo pueril. Ô saudade que deu de brincar com formiga, de andar só de calçola, de levar queda e arranhar o joelho, de fazer xixi de tanto rir... Nem a plena consciência de que a memória é safada e tinge em sedutores tons o passado deu conta de conter as lágrimas. Senti falta de tudo ao mesmo tempo: da minha mãe, dos meus irmãos pequeninos, da minha tia, de desenho animado, de catar sementinhas vermelhas, de revistinhas da turma da mônica e dos meus amigos que não vejo mais. A crise peter-pan se estendeu pra uma saudade do Brasil, de Português, de Fortaleza, do calor. Saudade do que agora se passa e do por enfrentar. Agora era encarar o apuro de se erguer em soluços e expor um rosto adulto todo vermelho e inchado. Quem prestava atenção (sim, sempre há alguém à espreita!) deve ter achado pra lá de bizarro: não é que desatou a rir a moça que ainda agora se acabava de chorar?
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