Altar

.
Ela ali, a um passo do altar. Altar da igreja, do casamento, do circo que passou os últimos seis meses, que últimos seis meses, últimos oito anos armando! Começou a namorar Arnaldo porque fazia sentido. Ou melhor, porque não havia sentido não fazê-lo. Ela solteira, o rapaz interessado, boa-aparência, promissor... Tudo começara como uma simples prova de sanidade mental e agora... Arnaldo não lhe dera só flores. Foi proteção, força, reforço de Português, visão de futuro, equilíbrio, noção de filosofia, sussurro ao pé do ouvido, numa atenção quase que telepática. O que oferecera em troca? Nada! Arnaldo não precisava de coisa alguma. Tão perfeito, tão polivalente, tão inacreditável, tão sublime, que... Não fazia o menor sentido! O que Arnaldo queria dela? Por mais rápido que o pensamento fosse e voltasse, o clima na igreja começava a ficar tenso. Maria Helena parada antes do passo final, a concluir que Arnaldo era daquela classe de seres que ama assim tão fisiologicamente quanto respira. A criatura a cumprir a ponta de esposa não precisaria fazer muita coisa mesmo. Poderia ser uma árvore, um cachorrinho, uma velhinha de 84 anos, uma bicicleta, uma prostituta... não importava, Arnaldo levaria pra passear, zelaria, amaria, do-mes-mo-jei-to! Maria Helena a um passo de firmar esse contrato insensato e a pergunta aporrinhando: O que diabos desta pobre mulher queria aquele homem? Por que logo ela? E de onde ela tiraria o que não tinha nem pra si? Pois que ele arranjasse criatura suprema igual e que fossem irritantemente perfeitos juntos!
.
Algo naquela mulher o fez acreditar que seria ela, mas o quê? Teria sido a beleza? - se indagava agora. Ele a amava! Se bem que ali do altar, suando sob os holofotes da cerimônia matrimonial, já não dava para garantir. Espera aí... Por que é mesmo que a amava? Deixasse de besteira, não havia explicação! Se o que não tinha explicação era fé, futura descoberta científica ou amor - e Maria Helena era, convenhamos, uma tentação... Amor, sim amor... Mas entender de amar Maria Helena não seria - ao fim das contas - fé? Desejo? Precisava rever as categorias... Precisava era parar de pensar! E Maria Helena? O amava? Ora Arnaldo, aquilo não era hora de... O amava? A noiva - que caminhava em sua direção - parou. Arnaldo tinha feito tudo: amado, educado, respeitado, inspirado, cultuado. Não deixara passar nada! Teria se dado mais do que deveria, mais do que poderia? E ele? Ele a amava? E se tudo não passasse de um sutil erro de juízo? E se Maria Helena o quisesse unicamente porque, afinal, ele era... Legal? Assim, meramente, sem nada de algo mais? E se ela não soubesse? ... E se ela soubesse?
.
No meio do espetáculo, a um pulo dos três passos para trás, da meia volta e da corrida que acabaria com tudo, Maria Helena conseguiu focar o noivo. Trocaram um olhar tenso. Maria Helena pôde identificar insegurança, dúvida, medo... Medo que talvez revelasse em Arnaldo a sutil brecha, o irresistível traço de humanidade que faria tudo... Dar certo? Era muito mulher para por tudo abaixo, sim era, e - naquele instante - essa simples possibilidade a deliciava! Não porque fizesse sentido - ou exatamente porque não fazia sentido algum - ela outra vez o queria! Uma espécie de instinto mudou a direção do seu movimento, que agora era para frente... E para não mais voltar!
.
E se ela soubesse? E se ela o amasse?
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Sim!
.
.
.
Sim!
.
.
.
.
.
F - i - M!
.

Marcadores: