Será arte?

Passo do Malandro

Ar decidido, giz de cera em riste e o desenho
de uma enorme espiral em azul, vermelho e preto ainda fresco, de ponta a ponta na parede.

"Pelo amor de Deus! Como é que você resolve riscar a parede desse jeito, minha filha?"
Realizado suspiro de contemplação diante da grande obra e o imbatível argumento:

"Mas num tá bonito?"
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Sabe como é mãe: por mais desgostosa que estivesse de flagrar sua cria em pleno ato de vandalismo, desistiu das palmadas, achou engraçadinho o ocorrido, deu-lhe um abraço cumplíce e pronto! O devaneio - que tinha tudo para ser abortado ali - foi validado e a menina guardou em alguma remota conexão neural a convicção de seu talento. Depois disso vieram a gravura da casa sobre a pedra segurada por um arame, as ondas revoltas no armário, o Rio de Janeiro primitivista na parede e umas tantas outras arrumações que a mãe, sempre ela, dando aquela força, habilmente integrou à decoração da casa. O prelúdio é para - COVARDEMENTE - co-responsabilizar a mamãe pelo mais recente afoite de inscrever minhas três últimas telas no 59o Salão de Abril. É claro que hesitei, sobretudo quando tive de anexar meu curriculum vitae, que de artístico só tinha mesmo a participação na "A Mostra é grátis, mas a arte não tem preço", exposição da I Semana de Arte Médica, movimento que encabecei. Então acho que não conta muito... É, não conta! A inscrição no concurso foi uma tentativa de me chegar oficialmente pro mundo das artes, tirar as telas de casa, ver se as brincadeiras com tintas não seriam, assim, eventualmente...
Arte?


Samba de bamba
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No! No! No!
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Superado o choque inicial diante da rejeição, processo até bastante rápido, eu diria,
resignei-me a bolar um jeito de expor a minha, a minha...
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Anti-arte!

. Parto, Desejo e Resistência
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Oriundas da mesma inesgotável fonte de caraminholas do cérebro, as telas agora chegam à rede. Das três rejeitadas mais recentes até as iniciais, à medida em que eu der conta de digitalizar, postarei aqui as minhas obras!
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Foi mal, pessoal: sobrou pra vocês!
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