Faculdade de Medicina

(Texto por ocasião do aniversário da Faculdade, encomendado pelo pessoal do PET Medicina http://www.fisfar.ufc.br/petmedicina/)
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Passou pra Medicina, a vida muda. Ora como pano de fundo, ora como atração principal, a faculdade está sempre lá. O jeito é se acostumar com o deslumbramento (ou desdém) que a condição de “acadêmico de Medicina” desperta. Pro resto do mundo você já é doutor e isso implica em incovenientes pedidos de receita, marcação de consulta e até pareceres. Do alto da sua inexistente experiência clínica, você tenta explicar que não dá, que os professores estão tentando te ensinar a não emitir atestados por procuração, que há uma inimaginável fila de pacientes à espera por consultas no hospital... Não adianta! O lance então é se concentrar no grande barato de entender a confusa maquinaria humana. Enquanto o poder de intervir em dores e mudar o rumo de enfermidades te seduzem, conciliar a própria complexidade com a da Medicina te enlouquecem. Pacientes, assim como você, não são anjos e endurer significa sim perder algo da ternura... Perigo é perder de vista a paixão! A ficha de que você é um medico em formação pode demorar a cair. No meu caso, demorou horrrores! Decidir, assinar e responder por suas decisões, tudo isso com uma dose de teatro e um quê de insegurança... Há quem queira sair correndo! Não adianta, aquela sensação de que não está dando o máximo de si estará sempre por ali, como uma mosca zombeteira. Ainda mais porque seu colega de turma é simplesmente a reprodução fiel de Hipócrates! Perceber que você não é exatamente assim vai doer. Só que a vida é de ironia tal, que o protótipo do clínico acaba se decidindo por algo tão especializado como, sei lá, retina! Cada qual é dono de suas escolhas, fazer o quê? Possibilidades não te faltarão! Procura direito: Todo mundo acha onde se encaixar! O que é afinal a faculdade se não uma vasta degustação de especialidades? Você passará por serviços que abomina e a vida de interno-contínuo muitas vezes vai dar vontade de chorar. Facilidade não há em quase nada nessa vida e, convenhamos, moleza não foi exatamente o que nos reuniu neste curso! Mestres te servirão de modelo e neles se espelhar não significa exatamente seguir seus exatos caminhos. Embora no começo parecesse que só mesmo um trabalho de macumba muito forte poderia transformá-lo em médico, não é que você aprendeu, rapaz? A sacanagem é que é só mesmo o suficiente pra nunca parar de estudar. Humildade pra confrontar os próprios equívocos ajuda... Infelizmente erros acontecem e a piedade com falhas médicas não costuma ser das maiores. Na formatura, você lançará sobre seus colegas um olhar cúmplice e se espantará com o fato de que o que no começo parecia tão homeogêneo revelou seres de interesses e aptidões tão distintas. O traço em comum são os anos de excelentes histórias, as amizades pra toda vida e a irremediável verdade de vocês agora pensarem e agirem como médicos!