Sem Ética, Inspiracao ou Progresso

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O mesmo impulso imbecil que me levou a inscrever quadros numa mostra competitiva de arte me instigou a participar de um concurso literário. A poucos instantes de cortar os laços com a Universidade, encontrei no concurso Escritor Universitário promovido pela Academia Brasileira de Letras uma boa oportunidade de me validar como escritora. Há seres mais capazes de reconhecer quem escreve que preste que imortais da Academia? Calma, nada de admissão pra ABL! Alguns inominados pingados selecionariam os três melhores textos, só isso... O que não impediu o inseguro devaneio: “Se eu ganhar o concurso, é porque levo jeito pra escritora!” Como se o mundo da literatura funcionasse nesses termos... Eu sei, eu sei... Coisa de gente que se submete a provas de admissão desde os dez anos de idade e desenvolveu o complexo de que só mesmo uma banca examinadora pode autorizar sua entrada em quaisquer que sejam os campos de atuação...
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O tema: Sem ética não há progresso.
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Honestamente, ética e progresso nunca me foram conceitos muito claros. Saiu um texto nada filosófico, uma tímida tentativa de brincar com os utópicos valores. Não ficou nem sério, nem engraçado, nem dentro, nem fora do tema, nem bom, nem ruim. Como foi o melhor que minha alma pôde oferecer ao assunto, mandei o ensaio.


Há uma semana comecei as primeiras páginas de um romance que já vai pela página 38. Na verdade, 37,5. Intimamente sempre soube que escreveria um livro. Romance ficcional sempre se pintou como um monstro na minha cabeça. Como é que a pessoa escreve 500 páginas? O ritmo do romance, diferente do da crônica – que, convenhamos, é mais minha praia - é o do deguste paulatino, detalhado. Minha gambiarra é a de construir o enredo em “causos” como se escrevesse o blog. Meio desengonçado o processo...
Há três dias
soube o resultado do concurso.
Adivinhem?
Não.
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Tudo bem, tranqüilo...
Eu não queria mesmo!
Há três dias
o livro não avança nem meia página.
Hoje
celei um compromisso:
* ACABOU * A * PROSTITUIÇÃO * LITERÁRIA! *
Não escrevo mais por renda, prenda ou qualquer coisa assim.
Um escrito de 38 páginas é quase uma criatura que já atingiu número de células desconcertante o bastante para que uma interrupção caracterize aborto! O presente texto serve de confissão de expurgo para que eu possa voltar ao amador delírio literário.
O livro vai sair!
Não me pergunte como.
Também não sei quando.
Neste espaço a escrita ganhou força e se tornou vital. Agradeço a vocês pela generosa leitura dos textos. Perdoem minha aparente apatia diante dos comentários: São sempre tão gentis, que fico sem graça!
P.S. Abaixo, para fins de registro, segue o texto do concurso.
(Sei se vale muito a pena não...)
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Agora as manchetes nacionais! Jornal do Dia: Ética deixa oficialmente o partido. Folhetim: Progresso será o próximo a abandonar o governo. O Capital: Sem Ética não há progresso...”
– Tenente Oliveira, quem é esse locutor?
– Zé do Rádio, Coronel.
– O senhor gosta do programa, tenente?
– Demais, senhor!
– Tenente, o senhor não acha que ele está um tanto equivocado no que se refere a seus conceitos político-filosóficos?
– Coronel, o Zé tá só passando a notícia!
– O que diz a nossa bandeira, tenente?
– Ordem e Progresso, senhor!
– Quem são os chefes do governo?
– Ordem e Progresso!
– O senhor mencionou alguma vez a Ética, tenente?
– Não senhor!
– Tenente Oliveira, o partido zela por princípios simples. Simples como a inteligência de nosso povo. Quando alguém vem falar na Ética e misturar toda sua conversa filosófica com Progresso - Progresso que se fundamenta na Ordem - nosso povo fica confuso! O senhor compreende?
– Sim senhor!
– Quero esse locutor amanhã na sala de interrogatório!
General Ordêncio, primeiro ministro, apoiara a Ordem em um golpe militar em detrimento dos demais valores. Progresso, que não era de se definir assim de imediato, permaneceu no governo, o que garantiu certa popularidade. Já a Ética não se alinhou aos princípios da ditadura e acabou por se retirar da bancada. Assim, a intrínseca ligação entre Ética e Progresso ameaçava não só o absolutismo da Ordem, como também o cargo do General.
            – Foi mal, Zé!
– Foi mal?! Tu me fodeu Oliveira!
Zé do Rádio e Oliveira cresceram como irmãos. Oliveira, que entrara para a academia militar mais pelo sucesso do uniforme entre o público feminino que por entusiasmo pela ditadura da Ordem, mal podia acreditar na enrascada em que metera o primo. Zé precisava de uma solução mágica, saída que os dois agora buscavam numa mesa de bar.
– Sujou, Zé! O pessoal do quartel tá chegando aí!
– Re-pi-to: Sem a Ética, o Progresso sai do governo e a Ordem se lasca!– provocava Zé, num prenúncio de confusão.
– Fodeu, Zé! O General!
Zé do Rádio, que bem sabia o que o esperava na sala de interrogatório, também era mestre em brincar com a vaidade alheia.
– Deixa comigo, Oliveira!
Resolveu arriscar:
–General Ordêncio! Em nome da nossa rádio, gostaria de convidá-lo a uma participação especial no programa de amanhã! O senhor, homem de muita ciência e cultura, será de extrema relevância em nossa discussão sobre a aliança “Ordem e Progresso”!
O General, que bem gostava de uma platéia, não resistiria ao convite:
– Bom dia caros ouvintes, aqui quem fala é Zé do Rádio...
O nome do locutor ecoou na mente do General, lembrando-lhe certo interrogatório do qual se esquecera por completo.
– General Ordêncio, o Progresso, nosso ministro do desenvolvimento, está prestes a abandonar a base do governo. O povo quer saber, o que fazer para garantir o Progresso no país?
A resposta foi a automática associação do General:
– Não há quaisquer indícios de ruptura na aliança Ordem e Progresso!
– O senhor acha que o Progresso resiste ao desacato aos bons costumes, aos deveres, ao modo de proceder dos homens em relação a seus semelhantes?
Tudo aquilo soava tão militar...
– Claro que não!
– Sem se determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo? Sem crítica ao julgamento de caráter moral?
– Não...
– Ao desacato ao homem, à injustiça e à ineqüidade, General?
–Não! – declarou o militar já algo confuso.
Era preciso arrematar antes que o entrevistado se desse conta do jogo:
– Como entusiasticamente defende o general Ordêncio, meus caros amigos, sem Ética não há Progresso!
O general agora precisava de um tempo para reordenar as idéias.
– Eu não disse nada disso, rapaz!
– Ética e Progresso! – prosseguia irrefreável o jornalista. – Ética e Progresso, meu povo!!!
Quando tudo soou muito inovador ao General, o clamor já se espalhara pelas ruas. Seguiu-se que Revolução tomou o país e a Ética se aliou ao Progresso. Democracia aproveitou o ensejo para organizar novo pleito e Honestidade fiscalizou tudo. A chapa Ética e Progresso arrebatou as urnas. Alegria contagiou o povo e Felicidade apoderou-se dos corações - até mesmo da Ordem - que cansou da mesmice tirana e ensaiou um samba para comemorar!
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Fim!
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