PSF


O primeiro paciente veio ao chão
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Não morreu o homem. Apenas quase me matou de susto, ao desabar sobre a frágil maca do consultório. Saiu ileso. Ufa! Também de todo não se perdeu o exame. Levantou-se de súbito o senhor de seus 40 anos, atestando, ao menos, o primor de seus reflexos. Depois deste, em três semanas, foram cerca de 180 outros pacientes... Atendidos. Gozadora a vida! Cerca de quatro anos atrás, era o Dr. Dalgimar afirmando que o destino da geração médica atual era o Programa de Saúde da Família (PSF) e eu batendo o pé que não. Meu destino, de fato, não é o PSF, mas a experiência me libertou profissionalmente. Para quem está prestes a entrar em um ciclo de 2-3 anos na pesquisa, trabalhar como médica do PSF foi uma experiência vital. Idealizando - como de costume - a clínica médica e me embrenhando assim direto pela pesquisa, as chances de encerrar precipitadamente a prática médica seriam imensas. Se só mesmo o batente para transformar um diplomado em Medicina em médico de verdade, melhor enfrentar de vez o pavor do equívoco e do despreparo. Isso ou permitir que os medos se convertam em feras grandes demais para a cabeça suportar. Bicho da cidade, também perdi o medo de cachorro, quase comi capote, conheci avestruz, senti na pele o calor de esturricar e respirei a poeira ardosa do sertão. Também me converti em atlas dermatológico. Foi escabiose, Tinea corporis e eczema de contato. Sem contar a rinite e faringoamigdalite. Além da hipocondríaca somatização (ou mera debilidade imunológica, como queiram) marcou-me também o singular dia-a-dia de uma cidade do interior cearense, apimentado por uma campanha política em que o principal candidato atende pela alcunha de "pit bull". As pinturas do cachorro (aqui nenhum joguete de palavras com a pessoa do senhor atual prefeito) correm o risco de perder os testículos, considerados obscenos por figuras opositoras. Também a academia de ginástica de Forquilha vai deixar saudade: Academia da RiSo! Huhauahuahuhuahua É Risoletta o nome da dona do estabelecimento. Sem intenção de cutucar o criador, essa sim é onipresente! Elétrica, Riso ocupa todos os possíveis espaços. A pulso firme comanda a aeróbica, o jump, a hidroginástica, a musculação, a natação... - Ô Senhor! - o grito é com o ofegante menino de cinco anos, apoiado na borda da piscina - Vai se aposentar aí mesmo? Também guardo como terna lembrança a delícia de ter como companheiros de aventuras queridos colegas de turma. Voltar para o "Hotel e Churrascaria Petisco" (quem disse que não há glamour na profissão médica?) e rir, dividir, perguntar, crescer... Fez o tempo passar rápido de tão bom!

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Nada como uma bela dose de realidade contra o desassossego infundado!
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Só pra não perder o gosto pelos ganchos arriscados, encerro com uma citação atualíssima que me chegou por duas vezes essa semana:

"O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. Aquele que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe, ou no morro; aquele que sobretudo, pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro - esse não é médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros e compensar os gastos da formatura. Esse desgraçado, que manda, para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula (esmola) que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida."

Dr. Bezerra de Meneses



É mole?