Minha caixola tupiniquim

"Nothing right in my left brain,
nothing left
in my right brain"
.

.
Uma vez um colega de faculdade hipotetizou que imediatamente após aprendermos exatamente a mesma coisa, ele saberia um pouco mais e eu, um pouco menos. A observação me irritou de imediato, afinal sempre fui a garotinha esperta da mamãe! Um pouco de distância do episódio me ajudou a entender a colocação. Sou de natureza ignorante: Uma nova informação é apenas mais uma no grande hall das incertezas de tudo o que ainda não sei. A Medicina é efetiva porque se basea numa intrincada linguagem de “certezas”, em que sinais X + sintomas Y + resultado do exame W = doenca Z. Claro que estou simplificando… e muito! Na mais das vezes, Z + Y podem ser também S, L, D ou Sabe Lá Deus! Com uma eficiente formatação, vulgo „prática”, fica mais claro o resultado. É um conhecimento que se constrói pela necessidade de convertê-lo em efetivas ações e não há duvidas: Quando dele dependem vidas, é fundamental estar certo. Afinal, o paciente vem até você porque você, mais do que ninguém, sabe! Como o colega habilmente sacou, minha mente está mais voltada para a incerteza das infinitas possibilidades. O saber, mais que um seguro destino, sempre me caiu mais como uma pista para o desconhecido. É o “não sei” que me movimenta. Como todos os caminhos tortuosos nos levam ao que desejávamos desde o principio, nos transtornos mentais encontrei dúvidas suficientes para atar toda a minha irrequieta ignorância. Com a liberdade de outra metafórica simplifição, em Psiquiatria ninguém está muito certo de nada, o que garante um amplo espaço para uma eventual reviravolta no paradigma corrente. Duvidando o suficiente para não confiar tanto assim nela, decidi me aprochegar pelas beiradas. Desde setembro estou às voltas com um mestrado em Neurosciências aqui em Berlim. Convicta adepta do auto-didatismo, não foi mole encarar seis horas de aula por dia! O rigor germânico me impondo 100% de presença e as minhas sagazes colegas biólogas alemãs discutindo cada ângulo de toda molécula envolvida me azucrinaram o juizo. Quem já se deparou com livros de Medicina sabe que eles não são lá muito “leves”. O jeito é partir pra uma leitura ultra-rápida, quase como um anti-virus a detectar e deter só os pontos, digamos, fatais. Aí me vem um professor-doutor-cientista-maluco indicando quarenta gráficos de vinte experimentos que conduzem a uma, eu disse uma, mísera sentenca de conclusão! O buraco, como se diz...
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.....é bem mais embaixo
e o caminho até a tão sonhada verdade pode levar, 10, 20, 30 experimentos, quem sabe toda uma vida... e durar só até um cidadão matreiro enxergar o mesmo problema por um ângulo ligeiramente diferente. Oh yes, baby, a ciência é de velocidade imprevisivel e o livro texto é de fato só uma bela amostra do que a a curiosidade e observação humana produziram ... Anteontem. Aos 25 anos e (duas semanas?), minha mente entra num outro ritmo de funcionamento. E não é que algumas das irritantes perguntas das minhas ultra-espertas colegas biólogas alemãs começam a pipocar na minha caixola tupiniquim? Agora entendo porque basta pesquisar mais a fundo um assunto pra encontrar como referência algum diligente cientista germânico: Os caras sao céticos, diretos, precisos. Da fronteira de tudo o que ainda não entendo, avisto um turbilhão de perguntas e nem precisa dizer: Estou aprendendo um monte!