Texto mais longo do que me agrada....

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 ...´Para os que carinhosamente  me pediram notícias. 
Grande abraco!
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Corro o sério risco de um dia matar qualquer espontaneidade que em mim ainda exista. É minha velha mania de investigar todos os comportamentos. Nao que eu acredite que de tal análise se possa fugir para todo o sempre, mas às vezes exagero na dose. Primeiro me irritei por nao seguir as linhas tracadas por minhas prévias escolhas. Só mesmo para mais na frente outra vez me irritar com meu inadmissível desejo de as querer seguir. É me contrariar de um jeito ou de outro. Eu poderia já saber qual era a minha desde lá atrás, quando parei de tentar aprender a surfar, por preferir passar os domingos estudando. Talvez antes mesmo disso, quando eu estranhamente me deleitava  com a oportunidade de aprender o máximo sobre todas as matérias no ano do vestibular. Nao que eu já nao soubesse... É que demora um pouco o processo de auto-aceitacao. Bem que eu gostaria de ser índio pelado e inocente assim numa floresta, mas aqui cheguei eu a este estágio em que nao mais se volta à ignorância primitiva, mas ainda longe se anda do que quer que se aproxime da sabedoria de um nirvana. De preferência, antes de abrir a boca sobre o que quer que fosse, saberia todos os saberes do mundo. E por que nao fazer todas as perguntas e convencer a vida a fazer uma breve pausa que me dê tempo de saber todas as respostas? Só mesmo para a partir do momento em que as verdades nao mais me fossem mistério, eu por elas já nao mais me interessasse. Entao deve ser mesmo somente uma questao de querer me desinteressar por todas as coisas. Talvez porque no Brasil a ciência nao represente uma atividade muito viável e o normal seja estudar e depois trabalhar ou  ir trabalhar logo de cara, só mesmo estudar... é estranho pra caramba. Quando meus colegas de turma seguiram com a residencia médica e eu inventei de fazer mestrado em neurociência, me acusei de estar covardemente evitando assumir minhas razoáveis obrigacoes de médica. Os pouparei dos detalhes, porque a meia dúzia de queridos amigos que estas linhas lêem já bem sabe como tudo aconteceu. Estudar Medicina foi a mudanca de direcao mais repentina que me aconteceu e ainda há pouco eu estava lá na faculdade, munida de um inconsciente desejo de inovacao e achando tudo muito muito estranho. Claro que qualquer um com o mínimo de nocao da vida poderia antecipar que a faculdade de Medicina nao seria o ambiente mais criativo... Bem, aparentemente,  eu nao. Aí veio o paradoxo: embora eu nao quisesse realmente largar a grande oportunidade que a Medicina me oferecia de conhecer de perto a tragédia humana, em nenhum momento eu me imaginava exercendo a profissao médica. O meu negócio era mais um estranho desejo de me fazer invisível e me por a escrever crônicas e mais crônicas, para que as cenas todas nao me escapassem à memória. Entao eu engatei a marcha do vamos-levando-tudo-isso-aqui-nao-muito-a-sério e conclui o curso com notas razoáveis e sem pescas, mas sem a menor sensacao de ter-me formado (num sentido mais geral). Durante a faculdade, o que eu mais desejava era querer do-fundo-do-meu-coracao ser médica clínica geral. Ainda insisti um bocado... até eu seguir de perto Dr. Marcelo Lopes - que é, imbatível, o melhor médico que conheci durante a faculdade - e  enxergar que eu nao poderia fazer aquilo com a mesma paixao. Foi aí que juntei toda a minha fascinacao pelo desconhecido e resolvi fazer ciência. Tal opcao também nao me foi sem dor. Após seis anos de treinamento para raciocinar exatamente como todos os demais médicos, fica meio difícil se permitir pensar diferente.  Anos de conhecimento o mais mastigado e menos questionado possível paralisam um pouco a imaginacao. Nao que eu ache que a faculdade de Medicina tenha de ser diferente. Há muita informacao pra se assimilar e nao dá mesmo pra ir muito a fundo na investigacao da origem das coisas. Reafimo: Está tudo certo... Eu é que passei alguns anos me sentindo no lugar errado. A ciência, a possibilidade de descobrir o novo, tudo isso é muito fascinante; o espectro de acao de um estudante de doutorado, muito limitado. Meu papel é conduzir experimentos previsíveis que gerem 3 publicacoes num prazo de três anos. Percebem? O lance é fazer o possível, de preferência nada muito criativo ou desafiador. Como minha reacao padrao ao tédio é a busca por atividades paralelas, comecei a estudar Física numa universidade à distancia... Adivinhem: me maravilhei! Em Física (teórica) as grandes descobertas nao partem necessariamente da análise de dados, mas de pensamentos que arriscam um passo a frente do conhecimento corrente, de maneira extremamente intuitiva. Eu me impacientei um bocado com minha latente inorância em Física e Matemática, mas estava confiante na transicao do estudo à distancia para a faculdade presencial. A razao para a troca é que Física tem toda a parte experimental, o que impede um estudo inteiramente on-line. Foi aí que a garotinha mais ou menos mimada aqui - que sempre acreditou tudo conseguir em uma mera questao de tempo e esforco - ficou arrasada ao saber que na Humboldt Universität nao se pode fazer bacharelado e doutorado ao mesmo tempo. Depois de muitas negociacoes eu até poderia, mas só depois de esperar o prazo para preencher as vagas com estudantes ainda sem nível superior. Ok, esse argumento é algo mais razoável.  Agüenta as pontas um instante que... nenhuma vaga sobra. É, dessa vez nao deu! Eu ainda tô aqui amargando a notícia...  Nao só porque fazer a faculdade de Física significaria muito pra mim, mas também pelo nao-pode-porque-nao-pode da querela. Por ora pelo menos já entendi porque a pergunta "Voce nunca vai parar de estudar?" tanto me irritava... Se pudesse, era só o que eu faria nesta vida.