Um português, uma japonesa, uma brasileira

Logo agora que eu estava decidida a retomar o meu inacabado projeto de romancista, descubro que ninguém menos que José Saramago já me roubou a idéia. Culpa minha nao prestar muita atencao em tudo que ele escreveu antes de a Jangada de Pedra. O manual de pintura e caligrafia, que por sinal ainda nao li, foi a retomada do autor à escrita e eu até entendo o porquê. Uma certa metalinguagem ajuda a transcender a realidade e virar ficcao. O livro se vale de um pintor a escrever sua auto-biografia para transitar entre os mundos da literatura e das artes plásticas. Andava eu toda satisfeita com a possível solucao para alguns dos meus demônios interiores, quando me ocorre - epa! - que o manual de pintura e caligrafia pode quem sabe tratar exatamente disso. Tudo já bem dito e escrito por Saramago! Isto claro é só mais um de meus medíocres conflitos... este em particular até já resolvido. Afinal, reescrever algumas obras pode ser um bom meio de dialogar com os gigantes. Agora eu ando mesmo é a admirar os Japoneses. Há de se parar para prestar atencao à dignidade daquele povo. O jornal Le Monde pôs na primeira página esta semana a imagem de uma japonesa que nao me sai mais da cabeca. Com um lenco no rosto a deixar-lhe apenas os olhos puxados à mostra, somente o reflexo de lágrimas a marejar-lhe a vista denunciam sua profunda tristeza. Basta visitar essa imagem em minha memória para que eu me envergonhe de me descabelar sempre e tanto por tao pouco. A série de catástrofes a abalar o Japao desperta nossa compaixao; a resignacao e a dignidade dos japoneses diante da dor, o nosso mais profundo respeito. É como se o sofrimento apontasse a que classe de seres o cidadao pertence. Há os que se desesperam e os que nos servem de exemplo. A minha avó faleceu há um mês. Ela nao era japonesa, mas pertencia à nobre classe dos seres valentes, desses que nao choram sem motivo e nao desabam diante da dor. Para eles, uma lágrima exige que se passe algo do porte da perda de uma filho ou quem sabe um terremoto seguido de tsunami e colapso energético que desencadeie uma tragédia nuclear. Eu bem que seguiria aqui falar de dona Lirinha, mas a minha avó, ou a ausência dela, é um assunto que eu ando a evitar, pelo menos por enquanto.