Domingo, Maio 08, 2011

Livro -2

Ela não faz questão de esconder que leu as últimas páginas deste manuscrito. Quer que eu pare de explorar meu melodrama pessoal para que finalmente comece a narrar sua odisséia. Aparentemente não se opõe às minhas observações, mas reclama maior evidência à sua fascinante pessoa nas páginas que seguem. Não deseja que o leitor por mim se encante e dela construa uma imagem, digamos, má. Muito me admira essa súbita preocupação de vó Rebeca com a opinião alheia. „Não é a opinião, mas a afinidade.“ Não é de assustar que vó Rebeca, ignorante de quaisquer teorias de Psicologia Social, esteja ciente de que a inclinação instintiva entre duas pessoas precede mais elaborados julgamentos? „Ora ora se não é a Dona Rebeca preocupada com o marketing pessoal!“ Ela então lança mão de um seco conselho para desviar o foco de minha admoestação. É melhor que eu permaneça no discurso indireto. Trata-se de uma alusão ao distúrbio que me atormentou por um tempo. De minha boca não saía nada que não fosse discurso indireto. „Algo melindrada, eu a lembro o perigo de tal provocação e advirto, nesses termos, não há meios de continuarmos a prosa.“ Já melhorei um bocado - mas sabe lá - um desafio desses e volto a falar como se escrevesse, escrever como se pensasse e pensar como se falasse. O delito aqui agora é dela, que me largou aos livros e saiu para vender jornal. É que deu tudo muito errado com meu pai e vó Rebeca decidiu fazer de mim o extremo oposto. Tendo em vista a criança assanhada e remelenta que fui, é fácil conceder ao falecido a figura de um desses filhinhos de papai que apodrecem e caem de tanto mimo. Não estivesse eu trancafiada do lado de cá das grades deste prédio, passaria muito bem por um dos meninos perdidos da beira-mar. Jamais comprem as aparências! Na verdade, eu sou a enervante experimentação da minha avó. Criança morre de tanto chorar? O que acontece se simplesmente fingir que não a vejo? Será que ela percebe que não tem pai? Nem mãe? Ainda hoje vó Rebeca se esquiva de qualquer envolvimento em
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meu enigmático desfecho. Se eu der certo não é seu o mérito; em caso contrário, sua é que não é a culpa! Não adianta perguntar o que exatamente ela entende por „dar certo“. Subentende-se algo como não pular pela janela do apartamento, por exemplo. O importante é ela se salvar. Aliás foi repetindo „Pernas para quê te quero, salve-se quem puder!“ que vó Rebeca desceu as escadas do prédio em ritmo acelerado. Maria optou por correr  feito galinha sem cabeça de um lado para o outro da sala e meu avô, por choramingar no fundo da rede. Todo esse descontrole por causa de um incêndio. Enquanto vó Rebeca tratava de alcançar o mais ligeiro possível o outro lado da avenida, eu me desdobrava para direcionar os movimentos de Maria e apressar meu moroso avô, que, nem em face às chamas a devorar o quarto de meu falecido pai, dava conta de alargar as passadas para além de míseros dez centímetros.
No fim, salvaram-se todos. A intrigante gula de viver de vó Rebeca deu na vista dos vizinhos. Um metro e cinquenta, setenta anos, oitenta quilos… Que fôlego! Com uma circunferência abdominal de apavorar os cardiologistas mais liberais, era de se admirar que ela desfilasse por aí toda serelepe sem nenhum infarto no peito. Meu avô, coitado, cansou de esperar pelo colapso cardiovascular da esposa. Vó Rebeca defende que ele se esvaiu de remorso, mas eu insisto em manter a tradição de acusações mútuas da família e afirmo: ela o matou. Não só por pregar insuportável e repetidamente a vulgaridade do marido até que este de fato se aproximasse mais e mais de um cão viralata, mas também por derrubar o armário no seu pé. O incêndio comeu também parte do armário do vovô. Convencida de sua própria corpulência, vó Rebeca inventou de remover o móvel sozinha. A peça de mobília então caiu sobre seu corpo, rolou sobre a santa protetora gordura abdominal e foi de encontro ao pé do meu avó, que, num reflexo inédito, levantou-se da rede.

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Não sabia ele que o fogo que lhe corroeu o armário invisivelmente lhe subiria o corpo. Do pé amputou-se o dedo, da perna foi-se o pé, do homem foi-se a perna. Sem perna não se pode andar, se acontecer de o apartamento outra vez fogo pegar… Também pensava que um novo incêndio se seguiria, mas vó Rebeca deixou tudo correr por conta do diabetes do vovô mesmo. Uma amputação a cada mês e - dentro de um semestre - da Terra foi-se o homem. Meu avô já andava doente dos nervos fazia um bom tempo. Chorava, gritava, rezava, pedia perdão. Vó Rebeca se deleitava: „Ô medo de ir pro inferno!“ Pelo sim pelo não, mal faleceu o marido, minha avó tratou de arranjar-se com o divino. Trouxe uma imagem do papa para a cabeceira da cama e pôs um rosário no pescoço. Já era um começo. Se ela não quis mudar de morada nem quando o filho saltou para a eternidade, um acontecimento de menores implicações como o óbito de um cônjuge é que não a faria abandonar o apartamento, não é mesmo? „Não se foge aos próprios fantasmas! É, mas cadê que a senhora entra no quarto do papai? Também tenho direito às minhas contradições!“ 
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Nem minha avó poderia prever que as crianças do condomínio se apressariam em tachar o apartamento de malassombrado, automaticamente emprestando à sua neta ares de minialma penada. Vó Rebeca jamais se sensibilizou com meus inúmeros apelos para mudar de casa. Tudo é só uma questão de atitude, o que de mim ela demanda desde todo o sempre. A saída foi convidar uma trupe de moleques para fazer uma visita ao nosso lar e fartar vó Rebeca de orgulho. Ela obviamente não precisou saber que a inspeção se tratava de um tour pela casa dos horrores, com ingresso ao preço de dez reais por cabeça. O „quarto do suicida“ os garotos não poderiam ver, porque… Bem, a verdade é que eu também não entro lá. Para a excursão das crianças alienadas o argumento de que o fantasma do suicida se apossava de quem quer que em seu aposento adentrasse parecia de bom tamanho. Por uma simbólica contribuição no valor de cinquenta reais eu até encorporava meu falecido pai. „Por que é que eles saíram correndo? É corre-corre, vó! Ah!“ Deveras curioso o íntimo desejo de vó Rebeca de que meu comportamento social chegue o mais perto possível da normalidade, quando ela jamais se esforçou em me oferecer os mínimos parâmetros que se aproximem dos padrões de uma medíocre família brasileira. Logo logo minha mente mercantil decidiu faturar com visitações ao quarto do „fantasma do avô amputado“ e encarar minha companhia tornou-se sinônimo de bravura e coragem entre as crianças do condomínio. Em parte também porque eu era a menina assanhada, ramelenta e caraôlha. Sim, sim, estrábica. Muito misterioso isso de a pessoa nunca saber ao certo se você está olhando pra ela. Mais legal ainda é descobrir que se pode enxergar ora com este ora com o outro olho. Evidente que esse deslumbrante achado foi devidamente incorporado ao repertório do pequeno circo dos horrores. Em meio à exploração de minhas irregularidades físicas e familiares, meu exotismo só piorava porque eu não ia à escola. Vó Rebeca esqueceu de me levar, eu acho. 
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Pelo menos teve a delicadeza de direcionar minhas leituras iniciais. Deu-me Monteiro Lobato para fazer cópias. Se ela desdenhava de minha inabilidade manual, eu começava a chorar. Nada impacienta mais a vó Rebeca do que choro. Ela simplesmente perde a consideração… Nunca chegou a me bater, mas me fez tomar inúmeros banhos. De labilidade emocional a fraqueza do juizo, pra vó Rebeca, banho tudo cura.
Rapidamente tratei de aprender a escrever e deixei de me lavar por um bom tempo. Sem muito mais com o que me castigar, vó Rebeca se limitou a me fornecer livros sobre os mais variados temas. Assim que eu dava conta dos primeiros, passava para os seguintes, até consumir por inteiro a biblioteca do meu avô. Tivemos então de ir às livrarias. Vó Rebeca sinalizava o meu tamanho e a vendedora tinha de nos trazer o material didático da série escolar um ombro mais alta. Tive muito o que ter com os livros. Nem vó Rebeca nem Maria podiam me ajudar muito com álgebra ou química orgânica. O jeito era perguntar pra outro autor. Mais por vontade de ter com quem compartilhar meu solitário e obscuro universo que por compaixão, tentei ensinar Maria a ler e escrever. Ela não se interessou; alegou não querer terminar como eu. Ainda cogitei desvendar a insinuação, mas há certos diálogos que devem acabar logo na primeira fala. Nunca mais enchi a paciência de Maria com indecorosas propostas de alfabetização. Ela tem tanto direito à ignorância, quanto eu a… isto aqui. Nenhuma de minhas missões catequizadoras jamais surtiu qualquer efeito. Aos dez anos, li sobre a abolição da escravatura no Brasil. Fiquei toda vaidosa de um município cearense ter sido o primeiro a libertar seus escravos. Resolvi libertar Maria. Expliquei que a escravidão acabara há mais de cem anos e que já estava passando da hora de ela partir. Maria começou a chorar. Não estaria eu contente com os seus serviços? Imaginem se eu não estaria mais do que satisfeita com o seu trabalho! 
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Entre outras coisas, Maria me ensinou a limpar minha própria bunda, amarrar o cadarço do sapato e andar de ônibus. Também me deu os únicos abraços de que tenho lembrança. Ainda lhe mostrei o livro de História, todos os fatos e datas, mas não adiantou muito. Depois de alguma confusão, ela captou meu devaneio. Explicou-me que, sim, era mulata, mas trabalhava na nossa casa voluntariamente e recebia salário. Eu então quis saber por que Maria nunca ia pra sua própria casa. Ela não respondeu, mas ficou conosco até hoje.
 

Não nos deixemos seduzir por Maria. Ela pode até me preparar deliciosos bolos de milho, cocadas e tapiocas, mas se esquiva de compartilhar as mais preciosas informações. Se Maria viu meu pai nascer, crescer e morrer, o que custa me contar o que houve? Não faz muito tempo que a chateio com minhas inquisições. Levei metade da minha vida pra descobrir algo de errado com meus pais e outra metade pra acatar suas ausências. Só agora é que ando a juntar os fragmentos da estória, na esperança de encerrar de vez o tema. Maria faz sessenta anos e eu a relembro nossa conversa. Já considero a abolição da escravatura numa província sem escravos algo trivial, mas ainda me interessa saber quando ela finalmente vai pra casa. Ela responde que não há mais casa para a qual voltar. Maria não é de muita conversa. Tudo o que até hoje denunciou a seu respeito foi um namorado policial, um filho bandido, um outro que morreu de dengue – segundo Maria, o melhor de todos - e uma filha com a qual perdeu contato. Jamais encontrei nenhum de seus filhos, mas simpatizo com a menina. Ela guarda o rancor de Maria a haver deixado aos cuidados da avó. Não entende que, assim como eu e vó Rebeca, Maria não sabe viver em outro lugar. Criou raízes neste apartamento. A maior parte do meu tempo passei sentada no chão da cozinha, com um livro no colo, a usufruir da companhia de Maria. Vó Rebeca só chegava tarde da noite, quando então nos 
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reunia à mesa de jantar e nos repassava os extraordinários acontecimentos de todos os seus dias. E se eu reclamasse de seu egocêntrico discurso ela rebatia que „assim procede toda conversação humana!" O objetivo oculto em qualquer discussão é expor o máximo possível de si, habilmente interrompendo o monólogo do outro. Eu que aprendesse a me fazer ouvir. Algo tarde demais, vó Rebeca tentou remediar minha metamorfose em uma criatura incomum. Decidiu me levar a uma escola. Após anos a me virar com os livros, não entendi a lógica de passar cinco horas por dia sentada a ouvir estranhos me repassarem o que eu poderia vir a entender indo direto às fontes. Voltei pra casa esbravejando que nem vó Rebeca, nem Maria frequentaram colégios e que eu não escaparia à tragédia iliterata da casa. Vó Rebeca ainda argumentou que meu avô jamais criaria um jornal sem ter ido à escola. Muito antes de a razão abandoná-lo de vez, ele fundou o maior jornal da cidade. Sim, é quase impossível atribuir tal feito à sua pessoa. Desde que me entendo por gente, vó Rebeca está à frente de tudo e de todos. Para encerrar o capítulo, a maltratei com seu incrível feito de dirigir um jornal de circulação estadual, dispondo de uma formação intelectual que não vai além da quarta-série primária: „Se é só questão de assassinar o dono do jornal, por que perder tempo em bancos escolares?“

Nunca mais fui à escola.
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