As
pancadas na porta se somaram às de dentro da minha cabeça. Não poderia esperar
de vó Rebeca complacência no momento em que a ressaca de uma noite embreagada e
maldormida se apresentava. O embreagado é um exagero para a vigília em questão,
mas como causa de mal-estar se aproxima bastante do maldormido, que nesse caso
já suavizava para o outro extremo. Em verdade, eu não dormira um segundo sequer
da alvorada que denunciou o namoro de Raimundo e Maria. Aposto que testemunhá-los
grudados um ao outro não surpreenderia vó Rebeca, que além de saber de tudo,
sempre, nasceu com o dom de, como ninguém, abalar a minha paz. Desta vez, apostou
em fortes batidas na porta do quarto.
- Abra
essa porta!
- Não
abro.
.
.
.
- A
senhora quer, por favor, parar de bater?
.
.
A zoada
continuou.
.
.
.
- Eu
já disse que não vou abrir a porta!
Ignorando a advertência, vó Rebeca continuou a esmurrar a madeira. Eram batidas de quem não estava muito contente. Não é
todo dia que se atinge a bruxa deste modo. Tive de pagar pra visualisar a sua
ira: Abri a porta.
- O
que é que a senhora quer?
.
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.
Vó
Rebeca reuniu toda a soberania de seu ser e me encarou, tão cheia de si, que fez
a minha pergunta aborrecida soar inadequeada.
- Eu
não sei o que é que tinha nisso que você andou bebendo, mocinha, mas que seja a
última vez que a senhorita bate as portas desta casa dessa maneira!
- Era isso? Pronto? Acabou?
- Ainda não. Maria, venha cá!
- Ah, não! - Resmunguei.
Não
pude identificar o rosto com que Maria adentrou o recinto; me recusei a contemplá-la.
- Tire
essa mulher da minha frente!
Vó
Rebeca reagiu como se a minha ordem se dirigisse não a ela, mas a uma legião de
servos imaginários:
-
Ninguém vai tirar a Maria daqui!
- Qual
é a da senhora? Essa daí tem dois filhos com o seu marido e a senhora ainda
a acoberta!?
- Isso não vem mais ao caso.
- E o caso com o porteiro?
(silêncio)
Decidi
ser mais precisa:
-
Sabia que ela anda se esfregando com o Raimundo?
-
Achei que você tinha aprendido a empregar melhor as palavras, menina! Se
continuar a se expressar assim, serei obrigada a pensar que você anda se
esfregando com o Daniel.
- É
totalmente diferente!
- Não
é não.
.
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.
-
Claro que é. O Daniel não é casado. E além do mais, eu nem queria me esfregar
com ele.
- Mas
se esfregou.
- A
senhora não me provoque!
- Então
não faça por onde!
- Quer saber? Há muito tempo não precisamos mais de empregada. Podemos dar as
contas da Maria!
Vó
Rebeca discordou:
- Ah,
mas vejam só que ousadia! Quem é você pra pensar em colocar a Maria pra fora
desta casa?
-
Agora a senhora me pegou! Não sei. Também não sei por que diabos eu sou justo a
filha da empregada com o vô Joaquim. Alguém pode me explicar? Quem
sabe a Maria... Pronto, aí está uma excelente oportunidade de ela soltar o
verbo!
- Já
falei pra medir as palavras!
-
Deixe a Maria falar, vó! O Raimundo comeu a sua língua, foi, Maria?
Maria cerrou a boca e encheu os olhos d’água.
- Não mexamos no passado. - Aconselhou vó Rebeca.
- Eu
quero ouvir. Anda, Maria, desembucha!
.
.
(silêncio)
.
.
Eu já
não mais contava com um pronunciamento da parte de Maria, mas ela aparentemente
se destina a declarações de alto impacto. Eis o que
disparou:
.
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.
- Eles eram irmão.
- Eles quem, Maria?
- A Dona Rebeca e o seu Joaquim.
- Eles quem, Maria?
- A Dona Rebeca e o seu Joaquim.
Precisamos
de um longo minuto até que cada uma dessas palavras decantasse. Para mim, elas
só começaram
a ganhar algum peso com a anuência de vó Rebeca:
-
Nossos pais morreram muito cedo e nós nos casamos.
(silêncio)
- A
senhora não pode se casar com o seu irmão. – Tentei lhe explicar.
- Mas
assim o fizemos.
Meu
olhar de descrença foi de Maria para vó Rebeca e dela pra Maria outra vez.
-
Conversa! – Concluí.
- É a
mais pura verdade. - Assegurou Maria.
- Vem
cá, por que é que a senhora se casou com o seu irmão?
- A
gente não sabia que não podia.
- Rá!
Essa é boa!
Vó
Rebeca não se deixou abater pelo meu desdém:
-
Quando descobrimos o incesto, já era tarde demais.
- A senhora
se deitou com seu irmão?
- Tentamos ter um filho várias
vezes, mas nenhuma das crianças
sobreviveu. Eu finalmente entendi as mortes como maldição dos céus, dos infernos
ou do que quer que o nosso entendimento não alcance. Parei de ter relações
sexuais com Joaquim.
A
declaração me disparatou um pouco. Já vó Rebeca, se constrangimento sentiu, não o
demonstrou. Havia ainda mais pra contar:
- Eu
então consenti que Joaquim engravidasse Maria. As relações extraconjugais do meu marido nunca foram segredo...
- Se o
vô Joaquim era seu irmão, por que é que senhora aterrorizava as suas amantes?
.
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.
-
Embora não mais o tocasse, eu ainda morria de ciúmes de todos os que dele se
aproximavam.
- Por
quê?
-
Porque eu era louca por ele!
Eu não
soube como dar sequência à conversa. Vó Rebeca passou
ao próximo tópico da pauta:
- Agora
'Maria e Raimundo'. Onde é que você arranjou todo esse moralismo? Você não tem o direito de se apressar em julgá-los! Não importa o que sua mãe faça. Ela é sua mãe. Ainda
que você não entenda ou até reprove as suas atitudes, ela merece o seu respeito.
Peça desculpas à Maria!
- Pedir
desculpas? Por quê? E o respeito para comigo? Então eu não tenho o direito de
saber a minha história correta desde o princípio, de conhecer pai e mãe, de ser
registrada em cartório, de ter um nome, de ir a uma escola?
- Não
se faça de vítima agora!
- Ah, está aí uma coisa que de que eu não preciso. Vivendo sob a sua tutela, esse papel se desenrola com
absoluta naturalidade!
- A
Maria está esperando por um pedido de desculpas.
- Eu não
peço desculpas a uma mosca morta que não abre a boca nem pra se defender. Minto! Abre sim; pra beijar o marido alheio!
- Já chega! Você tem até o anoitecer pra arrumar as suas coisas e ir
embora desta casa!
A fala anterior, como
a sequência do discurso sugere, foi de vó Rebeca. A minha resposta - seguramente não a mais estratégica - estava na ponta da língua
como de costume:
- Pois
eu vou agora mesmo!
(continua...)
.
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