Quarta-feira, Novembro 09, 2011

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As pancadas na porta se somaram às de dentro da minha cabeça. Não poderia esperar de vó Rebeca complacência no momento em que a ressaca de uma noite embreagada e maldormida se apresentava. O embreagado é um exagero para a vigília em questão, mas como causa de mal-estar se aproxima bastante do maldormido, que nesse caso já suavizava para o outro extremo. Em verdade, eu não dormira um segundo sequer da alvorada que denunciou o namoro de Raimundo e Maria. Aposto que testemunhá-los grudados um ao outro não surpreenderia vó Rebeca, que além de saber de tudo, sempre, nasceu com o dom de, como ninguém, abalar a minha paz. Desta vez, apostou em fortes batidas na porta do quarto.

- Abra essa porta!

- Não abro.
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- A senhora quer, por favor, parar de bater?
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A zoada continuou.
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- Eu já disse que não vou abrir a porta!

Ignorando a advertência, vó Rebeca continuou a esmurrar a madeira. Eram batidas de quem não estava muito contente. Não é todo dia que se atinge a bruxa deste modo. Tive de pagar pra visualisar a sua ira: Abri a porta. 

- O que é que a senhora quer?
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Vó Rebeca reuniu toda a soberania de seu ser e me encarou, tão cheia de si, que fez a minha pergunta aborrecida soar inadequeada.

- Eu não sei o que é que tinha nisso que você andou bebendo, mocinha, mas que seja a última vez que a senhorita bate as portas desta casa dessa maneira!

- Era isso? Pronto? Acabou?

- Ainda não.  Maria, venha cá!

- Ah, não! - Resmunguei.  

Não pude identificar o rosto com que Maria adentrou o recinto; me recusei a contemplá-la.

- Tire essa mulher da minha frente!

Vó Rebeca reagiu como se a minha ordem se dirigisse não a ela, mas a uma legião de servos imaginários:

- Ninguém vai tirar a Maria daqui!

- Qual é a da senhora?  Essa daí tem dois filhos com o seu marido e a senhora ainda a acoberta!?

- Isso não vem mais ao caso. 

- E o caso com o porteiro? 

(silêncio) 

Decidi ser mais precisa:

- Sabia que ela anda se esfregando com o Raimundo?

- Achei que você tinha aprendido a empregar melhor as palavras, menina! Se continuar a se expressar assim, serei obrigada a pensar que você anda se esfregando com o Daniel.

- É totalmente diferente!

- Não é não.
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- Claro que é. O Daniel não é casado. E além do mais, eu nem queria me esfregar com ele.

- Mas se esfregou.

- A senhora não me provoque!

- Então não faça por onde!

- Quer saber? Há muito tempo não precisamos mais de empregada. Podemos dar as contas da Maria!

Vó Rebeca discordou:

- Ah, mas vejam só que ousadia! Quem é você pra pensar em colocar a Maria pra fora desta casa?

- Agora a senhora me pegou! Não sei. Também não sei por que diabos eu sou justo a filha da empregada com o vô Joaquim. Alguém pode me explicar? Quem sabe a Maria... Pronto, aí está uma excelente oportunidade de ela soltar o verbo! 

- Já falei pra medir as palavras!

- Deixe a Maria falar, vó! O Raimundo comeu a sua língua, foi, Maria?

Maria cerrou a boca e encheu os olhos d’água.

- Não mexamos no passado. - Aconselhou vó Rebeca.

- Eu quero ouvir. Anda, Maria, desembucha!
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(silêncio)
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Eu já não mais contava com um pronunciamento da parte de Maria, mas ela aparentemente se destina a declarações de alto impacto. Eis o que disparou:

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- Eles eram irmão.

- Eles quem, Maria?


- A Dona Rebeca e o seu Joaquim.

Precisamos de um longo minuto até que cada uma dessas palavras decantasse. Para mim, elas só começaram a ganhar algum peso com a anuência de vó Rebeca:

- Nossos pais morreram muito cedo e nós nos casamos.

(silêncio)

- A senhora não pode se casar com o seu irmão. – Tentei lhe explicar.

- Mas assim o fizemos.

Meu olhar de descrença foi de Maria para vó Rebeca e dela pra Maria outra vez.

- Conversa! – Concluí.

- É a mais pura verdade. - Assegurou Maria.

- Vem cá, por que é que a senhora se casou com o seu irmão?

- A gente não sabia que não podia.

- Rá! Essa é boa!

Vó Rebeca não se deixou abater pelo meu desdém:

- Quando descobrimos o incesto, já era tarde demais.

- A senhora se deitou com seu irmão?

- Tentamos ter um filho várias vezes, mas nenhuma das crianças sobreviveu. Eu finalmente entendi as mortes como maldição dos céus, dos infernos ou do que quer que o nosso entendimento não alcance. Parei de ter relações sexuais com Joaquim. 

A declaração me disparatou um pouco. Já vó Rebeca, se constrangimento sentiu, não o demonstrou. Havia ainda mais pra contar:

- Eu então consenti que Joaquim engravidasse Maria. As relações extraconjugais do meu marido nunca foram segredo...

- Se o vô Joaquim era seu irmão, por que é que senhora aterrorizava as suas amantes?

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- Embora não mais o tocasse, eu ainda morria de ciúmes de todos os que dele se aproximavam.

- Por quê?

- Porque eu era louca por ele!

Eu não soube como dar sequência à conversa. Vó Rebeca passou ao próximo tópico da pauta:

- Agora 'Maria e Raimundo'. Onde é que você arranjou todo esse moralismo? Você não tem o direito de se apressar em julgá-los! Não importa o que sua mãe faça. Ela é sua mãe. Ainda que você não entenda ou até reprove as suas atitudes, ela merece o seu respeito. Peça desculpas à Maria!

- Pedir desculpas? Por quê? E o respeito para comigo? Então eu não tenho o direito de saber a minha história correta desde o princípio, de conhecer pai e mãe, de ser registrada em cartório, de ter um nome, de ir a uma escola?

- Não se faça de vítima agora!

- Ah, está aí uma coisa que de que eu não preciso. Vivendo sob a sua tutela, esse papel se desenrola com absoluta naturalidade!

- A Maria está esperando por um pedido de desculpas.

- Eu não peço desculpas a uma mosca morta que não abre a boca nem pra se defender. Minto! Abre sim; pra beijar o marido alheio!

- Já chega! Você tem até o anoitecer pra arrumar as suas coisas e ir embora desta casa!

A fala anterior, como a sequência do discurso sugere, foi de vó Rebeca. A minha resposta - seguramente não a mais estratégica - estava na ponta da língua como de costume: 

- Pois eu vou agora mesmo!

(continua...)
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