Domingo, Janeiro 08, 2012

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Acordei intrigada com os seres em meu entorno. Então eu morrera e os urubus já me devoravam a carne?

» Sumam daqui!«

Uma voz forte e decidida espantou o magote de meninos de rua ao meu redor. Inicialmente pensei em vó Rebeca, mas o tom era decididamente masculino. Enquanto me esforçava para identificar a voz do benfeitor, verifiquei os bolsos da calça:

» Droga, me levaram tudo!«
» Celular, cartões de crédito?«
» Vinte reais.« (pausa) » Na verdade, dezoito.«
» Isso lá é dinheiro, criatura!?«
» Quem é você? Meu protetor espiritual?« – arrisquei, ainda sob efeito do sonho.
» Rá – rá – rá ! Sou tu-do menos isso.«

O homem se acocorou à minha frente.

» Você é um travesti! « - o alertei.
» E você é muito observadora.« - ironizou o estranho, acariciando o meu couro cabeludo.
» Tire as mãos de mim!«
» O que é que você está fazendo aqui, menina? A vida na rua não é pra todo mundo não.«

Meu interlocutor era um senhor, ou senhora, de seus sessenta anos. Adornava-se de longas unhas encarnadas e uma carregada maquiagem no rosto. Ignorando o evidente conflito com a cor mulata da pele, ousara tingir os cabelos de amarelo.

» Buu.« - provocou, divertindo-se com meu embasbacamento. » Rá – rá – rá ! Me chamo Lola e você?«

(silêncio)

» Ah, bicha besta! Quer fazer amizade, não? Já vi tudo: Bi-cho do ma-to! Acabou de chegar na cidade grande com a fortuna de quanto mesmo?... Sim! Vinte reais... E perdeu tudo. Tadinha... Tia Lola vai te ajudar, viu?«

Mais uma vez alisou-me o cabelo.
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» Já disse pra não tocar em mim!«
» Braaaaba!« (pausa) »Vou te levar pra minha casa, minha bichinha. Ande, levante daí!«

A casa de Lola, um pequeno sobrado branco, ficava a trezentos metros do aterro. No térreo, além da recepção e de alguns quartos, havia uma escada que dava acesso, acredito, aos demais dormitórios para onde se dirigiam homens acompanhados das moças da casa.

Boa ocasião de fugir dali, mas a curiosidade com o novo ambiente e, sejamos francos, a falta de alternativas boicotaram a aconselhável evasão.

» Isso aqui é um puteiro.« - declarei.
» Ótimo! Não preciso mais nem explicar.«

Lola me conduziu a um dos quartos do térreo.

» Quantos anos você tem?«
» Vinte e cinco.«
» Tudo isso? E por que esse olhar de virgem?«
» Isso não é da sua conta!«
» Você é virgem, garota?«

Dei de ombros.

» Ah, não quer falar? Tudo bem. Vamos fazer um exame físico.«

Lola me sentou numa cadeira e elevou o meu queixo de modo que a lâmpada suspensa ao teto iluminasse bem o meu rosto.

» De onde é que eu te conheço, menina?«

Dei de ombros.

» Que negócio é esse de ficar dando de ombros? Quando eu falar com você, você responda, sua atrevida!« (pausa) » Você é daqui de Fortaleza?«
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Balancei a cabeça em sinal afirmativo.

» Abra a boca.«

Sem muito esforço, Lola dominou minha mandíbula e direcionou minha cavidade oral para a posição de inspeção que lhe pareceu ideal. Nesse momento eu me dei conta de sua corpulência. Na hora do aperreio, todo mundo se apega ao divino. Com o intuito de indicar a um hipotético Deus a excelente oporunidade de me arrebatar, reproduzi mentalmente todas as orações que a muito contragosto aprendi com Maria.

» Dentes bem cuidados.« - atestou Lola. » Você não é cão sem dono, menina.« (pausa) » Cadê seu pai? Cadê sua mãe?«

(silêncio)

Lola insistiu no interrogatório:

» De onde é que eu te conheço?« 

Livrando-se do casaco de malha, anunciou:

» Ah, deve ser bestagem minha! Exame ginecológico. Deita aí.«

Verifiquei uma extensa marca de queimadura em seus membros superiores.

» As cicatrizes? Lembranças do fogo do inferno. Rá – rá – rá! Anda, tira a calça e abre as pernas. E não precisa ficar com medo, que eu não gosto da fruta!«

O argumento me tranquilizou. Obedeci. 

A lâmpada agora iluminava minha genitália.

» Aaaaaah, mas vejam só! Não é que a muchacha vale mais do que a tia Lola pensava? Preço de estréia é mais caro!«- comemorou. »Pode se vestir.«

Alguém bateu à porta.

» Telefone, Lola!«
» Uma hora dessa? Aff...« (pausa) »Tô indo!«
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» A senhorita trate de me esperar aqui bem paradinha, bem bonitinha, bem caladinha. Conheço todos os buracos dessa cidade. Se pegar o beco, eu te acho, compreendeu?«

Quando Lola deixou o recinto, meu ímpeto não foi o de fugir. Sem muita reflexão, voltei às jaculatórias que Maria me ensinara:
Deus por mim, ninguém contra mim. Deus por nós, ninguém contra nós. Cegai, Mãe de Deus, para que os olhos do mal não me alcancem!
Se a casa de vó Rebeca já não era mole. A vida ali não seria fácil. Ou seria... mas não era bem essa a facilidade que eu almejava. Lola logo retornou:

» Boa garota!«

Sentou-se em uma cadeira bem à minha frente.

» Ah, a minha memória, Rebeca!«

Droga! A bruxa da vó Rebeca me localizara.

» Eu sabia que eu te conhecia, garota! Você ainda tem aquele olhar assustado do dia do incêndio.«
» As marcas de queimadura!«
» É, chérie, fogo queima.«

Cuidei de me abster de qualquer responsabilidade:

» O incêndio na casa do Benfica foi coisa da vó Rebeca.«
» Auto lá! Incêndio no meu corpo, meu bem! O fogo se alastrou pela casa acidentalmente.«
» Por que ela colocaria fogo em você?«
» Ci-ú-me!« (pausa) » Joaquim abafou tudo, claro! Era o dono do jornal... Tinha muito a perder se o nosso caso de amor caísse na mídia.«
» Caso de amor? Você e o vô Joaquim? Ah, faça-me o favor!«
» Qual o problema? E que mania é essa de chamar todo mundo de vô e vó? Não vai inventar negócio de vó Lola aqui não, hein!«
» Você está me dizendo, Lola, que o vô Joaquim teve um caso de amor com um travesti?«
» Com "um travesti" não, co-mi-go!«
» Será que estamos falando da mesma pessoa? O nome do filho dele também era Joaquim.«
» O Segundo? Filho de Maria com o... Como é mesmo o nome dele?« (pausa) »Raimundo!«
» O porteiro?«
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» Um namoradinho que Maria arranjou.«
» Deve haver algum engano. O Segundo é filho do vô Joaquim.«
» Que nada! Joaquim gostava de uma fachada. Queria porque queria dizer que tinha um filho.«
» Pera aí! De onde é que você conhece a Maria?«
» Do puteiro do Benfica.«
» Maria já foi prostituta?«
» A pessoa deixa de ser prostituta, médico, advogado? Pode até dizer que deixa, mas não deixa não.«
» Vamos com calma, Lola, que eu agora fiquei confusa. O Joaquim, dono do jornal, marido da Rebeca, era homosexual?«
» Bissexual, eu diria. O que não vinha mais ao caso, já que depois de me conhecer ele se entregou somente aos prazeres do meu corpo.« (pausa) » Quer dizer, isso só até o incêndio. O filho duma égua tinha pavor das minhas cicatrizes. Pois ele não pegou abuso de mim? Fiquei com tanto ódio que inventei que estava com AIDS. Mentirinha! Tinha tanta bicha pegando AIDS... Eu ainda não sabia, mas num é que eu tenho resistência ao Vírus? Benza Deus! Ah, mas o Joaquim ficou apavorado, crente que tinha AIDS também. Rá-rá-rá! É, aqui se faz, aqui se paga! Aquilo era uma besta com pose de intelectual. Pois num é que o filho da puta pirou? Coitado, Deus o tenha! «
» Então o Joaquim segundo não era homossexual?«
» Não que eu saiba. Mexia com negócio de droga, não era? Família complicada aquela ali...«
» Então o bilhete...«
» Que bilhete?«
» Antes de se suicidar, Joaquim Segundo deixou um bilhete. Dizia: ‘Sou gay. Tenho AIDS. A menina não é minha filha.’«
» Sim?«
» Se o Segundo não era gay e a Maria é analfabeta, esse bilhete só pode ter sido escrito pelo vô Joaquim.«
» Epa! Quem disse que a Maria é analfabeta?«
» Como?«
» Ôôôôôôôô biiii-cha sonsa! Sempre se fez de besta pra melhor passar.«
» Você quer me dizer que a Maria não é analfabeta?«
» Mas menina, que conversa! Eu mesma ensinei ela a ler.«
» Por que é que eu devo acreditar no que você me diz?«
» Acredite se quiser, Rebeca!«
» Rebeca é a minha avó!«
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» Eu tenho uma coisa pra você.«

Lola levantou-se e apanhou uma caixa de cima do guarda-roupa. Entre recortes de revista, fotos, panfletos e imagens de santo, pinçou um papel amarelado todo dobrado.

» O que é isso?«
» A sua certidão de nascimento.«

Recuei.

» Por favor, não brinque com este assunto.«
» Não é brincadeira.«



» Por que é que você teria a minha certidão de nascimento?«
» A Maria deixou no Benfica antes de se mudar pra casa da Rebeca. Com o incêndio, muito se perdeu, mas esse bendito papel não.«

Descrente, avaliei a certidão de nascimento de Rebeca Sertão e Silva, nascida em 14 de dezembro de 1986, filha de Joaquim Luar do Sertão e Maria Rodrigues e Silva.

» Rebeca Sertão e Silva.« – li em voz alta. » Então Joaquim era mesmo o meu pai!«
» Segundo o registro... O verdadeiro pai só quem sabe é a Maria. Ou não. Rá-rá-rá. Por falar em Maria, o telefonema era dela.«
» Foi a Maria que ligou?«
» A danada sabe que todas as meninas da rua, bem ou mal, chegam a mim.«
» Você falou que eu estava aqui?«
» Falei? Não lembro.«
» O que ela queria?«
» Ela disse... Meu Deus, eu sou uma santa e vou pro céu! Ela disse que se você aparecesse aqui era pra eu mandar você voltar pra casa, porque...«
» Porque... Fala, Lola!«  
» Tá bom. Mas só vou contar porque a notícia é boa. Rebeca está no leito de morte. Pronto, falei!«
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