Arte?



A mais sublime forma de arte é a música. Ou alguém há de discordar que as ondas de uma boa harmonia nos arrebatam com uma força única e escomunal? Infelizmente, expressão artística de minha autoria só mesmo em letra, mancha ou traço. Quiçá eu leve alguma chance com as canções se alguém cometer a loucura de me fornecer melodias carentes de letra... Um dia... Quem sabe... Eu gosto de pintar, de preferência em movimentos rápidos, num excesso de cores. Divertem-me a meladeira da tinta e, principalmente, a corporização de um pensamento puramente visual. Na contramão da desmaterialização, compro tela, tinta e pincel; gasto horas não mais terei a criar painéis grandes demais para o apartamento em que habito; e me frustro porque me falta o tempo para fazer mais e melhor o que faço não sei bem por quê. Então é assim: tudo começa despretensiosamente; aí o tempo passa, a agenda aperta e a gente se pergunta: o que é que quero mesmo com isto?  Eu vinha quebrando muita cuca para entender meu trânsito pelas artes plásticas. O conflito só se resolveu quando visitei a exposição de Gerhard Richter aqui em Berlim. Em uma entrevista, Richter, categórico, afirmava: pintar é uma grande idiotia. Custou-me acreditar que o artista plástico mais bem-sucedido da atualidade e um dos maiores de todos os tempos concordasse comigo. Ele prosseguiu: mas há de se fazê-lo como se em mãos se tivesse o poder de transformar o mundo. Gerhard Richter: tinta, tela, talento, técnica - o mestre que esticou os limites da pintura em todas as direções. Desgarrado de um só estilo, permaneceu fiel somente aos infinitos recursos que a arte oferece. Eu me deleito vendo-o produzir imensas telas abstratas e concluo: gosto mesmo dessa alienação que, ao contrário de Richter, não faço como que para revolucionar o mundo. O que eu quero é pintar malandros e mulatas, santos, franciscos, brasileiros. Meu comprometimento não é com a tinta, mas com a gente de que tanto gosto. Quando as transcrevo em frases ou pinceladas é como se as incorporasse, afagasse, compreendesse. Arte? Que nada, pretensão mesmo. Berlim tem aproximadamente 400 galerias e nada menos que 4.000 artistas, declarados. É gente que vive da arte e gente que trabalha com mil outras coisas para sobreviver. Este imã de cidade atrai artífices oriundos de todos os países. Pois não dei de cara com um artista brasileiro? Você é artista? Ah, legal.... E faz performance? Pois conta aí como é que foi uma performance que você já fez! Sempre me considerara uma pessoa muito aberta a toda sorte de possibilidades, cool, como já dizem até na Alemanha; a resposta do artista derrubou por terra minha suposta tolerância. Eis a dita performance: o cidadão introduziu um rosário no ânus e tirou, literalmente, o terço pelo seu c... cool. Eu, que de cool, descobri, não tenho nada, não pude nada além de arregalar os olhos para compor minha mais óbvia cara de choque. Desde então, não mais advogo uma vaga no seleto grupo dos descolados. Seria a performance de meu compatriota arte ou mera provocação? Ninguém me tira da cabeça que manifestação artística que se preze, por mais conceitual e ousada que seja, traga em si algo transcendente, belo. Conquanto a intolerância da Igreja Católica explique a rebeldia do artista brasileiro, fazer troça de um objeto que para tantos é sagrado vai além dos limites do meu gosto. Fazer o quê? Incólume às fronteiras de meu diletante contentamento, os artistas seguem a expandir as fronteiras do embasbacamento coletivo. E a arte?
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 Ah, a arte
É tudo
E o que é tudo 
É outra vez 
nada