A dona do jogo



Não é porque agora me ocupo da influência das oscilações cerebrais espontâneas sobre a percepção de uma ilusão visual de movimento que deixei de me interessar por questões existenciais. De umas tantas caraminholas bem que me esforço por me desvencilhar, mas a vida não me deixa escolha. Ou melhor, deixa muitas; e aí é que está o busílis. Falo de ir por aqui ou por ali, ficar ou mesmo partir, e até - sempre muito em gosto - anunciar um plano que transmita o ideal do rumo certo, o trilhar de uma estrada segura em plena posse de si. A sociedade e, como parte dela, eu queremos qualquer coisa como uma direção, um norte. Não sei é algo muito fraco de se dizer até mesmo do futuro; e não, jamais aceitaremos um caixão como resposta. O que nos interessa é o plano dessa ação toda com a qual nos empregaremos com o peso de uma eternidade. Aos relutantes em abidicar de absolutamente nada o passar dos anos não permitirá tudo, pelo menos não em plenas porções. Até aí nenhuma novidade; novo é alguém tão declaradamente autoprogramado de repende perder o rumo. Isso em plena consciência de que das decisões muito depende, nem que seja o tal sossego. Ah uma janela com vista para o futuro ou a maestria de um jogador de xadrez, capaz de antever dez, doze, quinze jogadas! É o que diz a vontade de acertar ou, olhando bem, o orgulhoso medo de errar (o que quer que um erro venha a ser). Quem sempre soube por onde ir não tem como crer que a vida não se lhe acomoda. Só com as primeiras contrariedades é que o cidadão se pergunta se as regras mudaram. Mais alguns desmandos do universo e um absoluto cansaço levanta a suspeita de que tudo não passe do despertar de uma ilusão de controle. É preciso acumular alguns anos para se constatar que não se procede exatamente como se vislumbra e que os melhores acontecimentos de nossas vidas nos abordam sem convite. Eu não posso continuar este texto sem admitir que andei travando quedas de braço com o destino. Com o que meu amigo Daniel Coelho bem diagnostica como pretensões de dominação global, pedalei um bocado sem que o mundo se dobrasse a meus mais ínfimos desejos. Gastei muita sola de sapato até entender que a vida não dá o que se quer, mas o que se precisa. No meu caso, uma dose cavalar de paciência e a perda total do domínio da situação. Já que tudo começou com uma perambulação pelo universo científico, uma chula noção de Etimologia agora me decodifica paciência não mais como o conhecimento do sofrer, mas o padecer do conhecimento. É que meu entusiasmo inicial pela ciência logo deu lugar a uma dolorosa descoberta: a rir de nosso limitado raciocínio, a natureza não nos satisfaz os caprichos; revela seus segredos quando, como, a quem e se lhe aprouver. Titubeando além do permitido a quem ousa soar definitivo, ofereço uma desconfiança: à vida só vence quem entra no jogo, dela.