Papo teuto-brasileiro

Fortaleza fez 286 anos e eu fiquei com vontade de parabenizar essa menina. E por que não melhorar a média do meu tempo de reação e já felicitar o aniversariante de setembro? Ô Brasil, meus parabéns! Lembro-me como se hoje fosse, expressão que evidencia o passar do tempo também para mim, de Thiago Castro, com sua jubilidade tão costumeira, a defender o Brasil em uma roda de estudantes brasileiros no vagão de um trem entre Berlim e Dresden. Era a brasileirada a descer o cacete na terra natal, como nos é de costume, e o Thiago apaziguando os ânimos: Pessoal, o Brasil é muito jovem. Meu professor, assim eu o costumava chamar, tinha a seu dispor a razão. Thiago nos deixou há algum tempo, mas eu nao me espanto de ele invadir este texto agora. É que em minha lembrança Thiago vem misturado à Alemanha, ao Brasil e, claro, a esse vigor de cidade que nasceu de um forte e anda crescendo rápido demais. De declarações infundadas me esquivo como o diabo da cruz. É este o princípio deste blog (por mais que eu só agora formalmente o elabore) e também o pretexto para ele se ancorar em minha limitada experiência pessoal (embora esta decididamente não pertença ao domínio público). Moro na Alemanha há tempo suficiente para considerar este país parte de mim, o que me confere, assim acredito, liberdade para a comparação que se segue. Se é de caricaturar os países, a Alemanha é essa senhora extrememente culta e pragmática, calejada de suas próprias presepadas, algo entediada com a vida. Já o Brasil está mais para um adolescente boa-praça de moralidade ainda duvidosa, com os hormônios à flor da pele, interessadíssimo em TV, futebol e mulher pelada. Observemos uma das muitas diferenças históricas entre o rapaz latino-americano e a distinta dama européia. Por mais que o Brasil exista como gigante entidade desde 1822, a formação de nossa identidade nacional ainda engatinha. Nao é de hoje que o País do Futuro é também o País do Futebol, mas todo brasileiro pressente: uma nação há de ser mais que um bom punhado de craques da bola. Voltemos os holofotes para a germânica (e também boa de bola) senhora. Ainda que povos de identidade bem estabelecida há muito habitassem o território alemão, o país em que hoje vivo unificou-se somente em 1871. A aliança implicou em reformulação da identidade, processo conturbado que, em minha humilde opinião, de certa forma concorreu para uma das maiores vergonhas humanas, o holocausto. Não obstante minha incompetência para discutir tamanha ferida, aponto o que mais escandaliza no irremediável massacre: a sistemática da carnificina. É que os alemães são metódicos no amor e também na guerra. Por mais que a perspectiva histórica ajude a contextualizar, vítimas e algozes eventualmente hão de se desvencilhar do passado. A mesma abelhudice que indaga quanto tempo a história levará para alvejar a mácula alemã também questiona se a violência brasileira não seria desordenada e corriqueira demais pra nos chocar. Não que uma resposta afirmativa justifique a nossa vista grossa. O que vale para o argumento é a observação de que mesmo a Alemanha, modelo de desenvolvimento econômico em questão, tendo de se reinventar várias vezes, o processo sempre se desenrolou na proa do(s) sistema(s) socio-econômico(s) vigente(s). Habituado a seguir uma cartilha internacionalmente imposta, só agora o Brasil começa a se despedir do papel de dominado. Veja lá que independência financeira até põe a faca e o queijo na mao, mas não estraçalha todos os problemas. A falta de compromisso com o bem comum, por exemplo, ainda salta à vista dos brasileiros. Que a presidente Dilma troque de ministro como quem troca de roupa, tal o volume das denúncias de corrupção, só ressalta a dificuldade de encontrar alguém sem nódoa. Tropeços rumo ao amadurecimento são mais que esperados; o que se exige do Brasil é nada além da capacidade de responder por si. Alguma dúvida de que ele consiga? Do exílio que enternece, me assanho por regressar ao Brasil moleque do qual Thiago se despediu cedo demais.