Belos narradores humanos

Acrescente-se ao tempo e à memória capaz de vê-lo passar a linguagem para compartilhar os acontecimentos e tem-se o que nos faz eminentemente humanos: a capacidade de contar histórias. Ainda que eu, com muito gosto, delas me servisse, considerava as narrativas uma exibicionista inutilidade. Por um bom tempo, me esquivei de contar histórias. Armada de pragmatismo do dedão do pé à ponta dos cabelos, busquei um univeso em que os fatos sublimassem por completo a subjetividade humana. Em minha inexperiência, eu me recusava a admitir que não fazemos coisa outra além de contar histórias. Não sabia que até o resultado de um experimento científico, numérico e estatisticamente testado como ele só, é comunicável apenas se embebido em uma interpretação narrativa, em um contexto puramente histórico. Ah, mas a vida tem como objetivo único nos fazer piada! Mesmo quem se tem na conta de viver exclusivamente de empiria não foge à sina de se subjetivar com histórias. O caráter narrativo de nossas vidas foi muito bem captado pela equipe do facebook. Com requintes que tornam a plataforma cada vez mais adequada à humana necessidade de compartilhar a própria existência, o site de relacionamentos viabiliza a documentação e a edição gráfica da vida comum. Por mais que eu me assuste com o volume da informação lá publicada e evite uma exposição pessoal excessiva, acolho com simpatia a democratização da liberdade de expressão. Mais e mais gente pode exercer a urgência de dizer onde, como e o que sente. Comentando a própria vida e as alheias, transbordamos o que há de mais humano: nós. O perigo de se perder em aparências no facebook é o mesmo oferecido pela teia de relaçoes da vida real. É só bobearmos e caimos no abismo entre o que se mostra publicamente e o que de fato se experimenta. Também as consequências de revelar o que se quer no mundo virtual são tão reais quanto as da vida fora das telas de computador. Cientes disso, com um olho no impacto, outro na reputação, seguimos a contar histórias por todos os meios que se apresentem. Precisamos angariar testemunhas para o deserto de nossas existências, precisamos de afeto. Parte do afago agora nos vem em forma de polegares em riste e breves frases de aprovação. Como autores, teatrais, literários ou facebookianos, expomos a história que queremos; como expectadores das histórias alheias nos regozijamos com o bocado nosso que encontramos no outro. Beleza é o nome do tal pedaço carente de ressonância. É a ela, no visual, na conduta, no caráter, que aspiramos. Só que há muita beleza solta pelo meio do mundo. Sem a lupa, que pode ser a lente de uma câmera ou as palavras de um curto texto, ela por vezes nos escapa. É por isso que, quando a enxergamos, a agarramos e a embalamos em histórias que nos maravilhem, histórias que nos reafirmem como contadores de causos, belos, narradores, humanos.