Ser ou querer ser: eis a questão

I M P O R T A N T E :

Antes de começar a ler o texto que segue, enumere, por gentileza, os três animais de sua predileção:

1) _________________________
2) _________________________
3) _________________________

Pronto?

Pois vamos ao texto:


O professor de Espanhol nos fez nomear três animais favoritos. Minha primeira escolha foi a borboleta; a segunda, o cavalo; a terceira, o passarinho. Com seu incrível carisma, Miguel demandou ainda que justificássemos cada item da lista. Pulemos o paupérrimo Portunhol de minhas explicações para chegarmos logo ao desfecho da tarefa: o primeiro bicho corresponde ao que eu gostaria de ser; o segundo, ao que pensam a meu respeito; o terceiro, ao que realmente sou. Rindo da colega que elegeu o hipopótamo, o elefante e o abutre, lembrei-me da vizinha do andar de baixo me perguntando, indignada, por que razão eu galopava em meu apartamento. Tudo explicado: Não sou eu; é apenas a sua percepção da minha pessoa, minha senhora! Quais são mesmo os seus três animais favoritos? Simpatizando com a idéia de me transformar numa borboleta, a lagarta aqui só não comprou a lição da brincadeira porque de pássaro cantor, convenhamos, nada tenho. Estou mais é para o bicho com o qual uma conhecida de minha mãe uma vez se definiu. Segundo ela, o pato é um ser multivalente: nada, anda, até voa. Agora vai ver como é que o pato nada, como é que o pato anda, como é que o pato voa... Não sei se é uma distinção de caráter ou apenas o castigo dos indecisos, mas também me identifico com o bicho pato, mais especificamente, com um pato empenhado em nadar como um golfinho, marchar como um cavalo e voar como uma águia. Um pato que só quer ser, diriam no Ceará. Se ser mais do que o que se é é crescer e crescer é exatamente o que almejamos, ou pelo menos deveríamos, assim não agimos todos? Esse é apenas um dos meios de lidar com a expressão arquitetada para reduzir um pretensioso indivíduo ao seu real tamanho. Em verdade, quem só quer ser está é desgraçadamente em desalinho consigo. O que o homem pensa ou almeja ser não vai muito além de um punhado de conceitos emprestados das cabeças alheias. Para mudar a própria condição só mesmo com concretas ações. Ações, somente elas, fazem o homem. São as ações que produzem as obras das quais a criatura de alguma sanidade logo se desapropria. A razão? Somos sempre maiores e menores do que pensamos. Já para as grandes obras não há contradição: são necessariamente maiores que os seus autores. Ai do agente que se perca em retóricas denominações! Classificações não só enquadram; enquadradam. O conselho para preferirmos o ser ao ter é um bem-intencionado lembrete para não nos concentrarmos apenas na acumulação de capital, mas pensar em ser não ajuda muito. Precisamos nos movimentar para que as coisas aconteçam e nós nos transformemos. Não é possível fazê-lo enquanto nos esforçamos para ser deste ou daquele modo. Optando por assumir determinados papéis, nos modificamos aos olhos de outrem. Na solitária intimidade, o que continua a existir é sempre só o momento presente, toda a carga do passado, ou a angústia de um futuro. Reavaliar os objetivos, identificar nossas aptidões, olhar para trás e ver o que fizemos é inevitável e até sadio. Podemos querer nos passar por lindos, loucos, gênios ou santos, mas o que somos é um projeto inacabado debaixo de uma lona azul de céu, gente com uma noção circunstancial do começo caminhando curiosa com o que vai se passar até o final. Quando morremos, sim, é possível fazer um balanço da ópera, tirar uma conclusão sobre o conjunto de ações que rubricamos ao longo da vida. Podem até encher a boca para sentenciar: fulano era isso ou aquilo outro... Mas aí, que graça, o tempo do verbo mesmo é quem entrega: já era.