Súplica incógnita


Antônia Rita se largou no sofá. Plantou-se ali perguntando-se o que seria do mundo sem ela. Achou graça do cansaço cheio de si. Até esgotada daquele jeito, prontinha para ir para o lixo, não perdia a pose. Fatigara-se do salto, das roupas no armário, das contas, dos planos, dos sonhos. Enfadara-se dos sonhos? Seria isso trágico? Temeu. Antônia Rita sorriu para a tragédia. Ou riu a Rita do infortúnio de Antônia? Antônia levou a desgraça e Rita, como bem destaca a canção do Chico, o sorriso, os vinte anos, o coração. Era Antônia e era Rita; que remédio? Carregando os dois nomes; ficaria com tudo. Piada de pais sem a menor graça essa dos nomes compostos! O telefone tocou. Cogitou deixá-lo soar eternamente, mas o que perderia em tirar o aparelho do gancho? Já a se arrepender do que lhe custava o movimento, ergueu o telefone até a orelha.
» Alô, Susana?«
Rita, Antônia, Antônia Rita... Três opções e o cara ainda erra?
» Alô? Susana?«, insistiu o estranho.
Não respondeu; também não desligou.
» Responde, Su!«
Antônia Rita apreciou a súplica.
» Tá, não quer falar, né? Tudo bem. Olha Su, eu sei que você tá chateada. Foi mancada minha mesmo, mas você bem que podia me dar uma nova chance, vai!... Su, Você não vai falar nada?«
Nossa heroína não pretendia falar o que quer que fosse. 
» Vamo lá, Su, briga comigo, me xinga, vai! Não, não bata o telefone na minha cara, pelo amor de Deus! Deixa pra me bater pessoalmente. Rá-rá... Tô brincando: eu não quero que você me bata! Eu bem que mereço, mas não é pra bater não, viu? Hein, Su? Cadê aquela sua alegria?«
Em um dia de mais coragem, Antônia Rita explicaria que não era triste, estava apenas cansada.
» Su, você ainda está aí?«
Antônia Rita suspirou.
» Ah bom, pensei que tinha-me deixado plantado aqui... Eu sabia que você era boa demais pra me negar uma chance! Sempre teve o coração maior que a barriga, né não? Ei, Su, não tô chamando você de gorda não. São os dizeres que me saem atravessados mesmo... Eu sei, você ainda não me deu chance nenhuma, mas a gente assim nesse bate-papo já é um começo, né? Pra mim eu tô é vendo você pendurada no telefone feito uma gata parruda, esparramada aí nesse sofá... Linda, linda, linda! Quer saber, eu vou agora aí na sua casa!«
Antônia Rita não chegou a se preocupar. O verborrágico desconhecido jamais bateria em sua porta.
» Não, vamos fazer o seguinte... A gente vai se encontrar sabe onde? Na pastelatria da Praça do Ferreira. A do caldo de cana, sabe? Na hora do almoço, que tal? Responde, Su! Tudo bem, eu não vou insistir... Não quer falar, não fala. Você não quer ir me encontrar, é isso? Pode falar. Se não quer, é só dizer. Comigo não tem isso não
A moça permaneceu em silêncio.
» Ah, Su, sabia que você ia me dar essa chance! Que saudade que eu tô de você! Então pronto, a gente se encontra às 12h15, em frente à lanchonete. Eita Su, já são oito horas; é melhor você ir pro trabalho... Emprego tão bom esse seu! Anda, levanta aí desse sofá! Beijo, linda... Até mais tarde! Qualquer coisa, me liga. Tchau.«
O tom reconciliador do estranho injetou-lhe novo ânimo. Antônia Rita ergueu-se de súbito. Largou a canseira no assento e paramentou-se com o traje de escritório. O emprego era bom; foi trabalhar.