Uma mente errante é uma mente infeliz

Nem sempre os resultados de um estudo científico encontram emprego prático na vida do homem comum. Algumas investigações, no entanto, se aproximam tanto da experiência individual que a gente se aventura até a propagar suas conclusões no frescor de uma linguagem não acadêmica. Killingsworth e Gilbert desenvolveram uma aplicação para smartphone que lhes permitiu monitorar os pensamentos, sentimentos e ações dos participantes de um experimento bastante inovador. Em momentos aleatórios do dia, a aplicação perguntava aos 2.250 voluntários da pesquisa como se sentiam (bem ou mal, numa escala de 0 a 100); se pensavam em algo diferente do que faziam (não; sim/algo agradável; sim/algo neutro; sim/algo desagradável); e, finalmente, o que faziam. O estudo não foi publicado em uma das mais respeitadas revistas científicas apenas pela moderna abordagem. A quem nele ainda não encontrou nada de especial adianto que os participantes pensaram em algo distinto da atividade corrente em aproximadamente 47% das vezes. Curiosamente, a ocupação das pessoas não influenciou nem o estado de concentração da mente, nem a qualidade dos pensamentos. Em todas as ações, incluindo as mais desagradáveis, os participantes se declararam mais insatisfeitos quando meditavam sobre assuntos outros do que quando se concentravam no que faziam. As mentes errantes refletiam principalmente sobre temas positivos; ainda assim não se alegravam mais do que quando focavam na atividade presente. Já quando ruminavam assuntos desagradáveis, ou mesmo neutros, os voluntários se revelaram definitivamente mais infelizes. Uma análise do curso das respostas ao longo do dia sugeriu ainda o vagar da mente como causa e não mera consequência da infelicidade dos participantes. De uma maneira geral, o conteúdo dos pensamentos, mais que a natureza das atividades exercidas, explicou o estado de espírito dos indivíduos. Mind wandering, que aqui arrisco traduzir como o vagar da mente, não é de todo ruim. É o que nos permite aprender, pensar, planejar o futuro. De certa forma, o  estudo confirma o que já se sabe: a mente humana vagueia. Metade do tempo é uma proporção maior do que os experimentos previamente realizados em laboratório indicavam. O que o artigo nos trouxe de novo, porém, foi a evidência de que essa habilidade se acompanha de um custo emocional. Ao que parece, a felicidade se refugia em uma mente presente e quieta. Então, não importa o que façamos, o melhor é imergir 100% na tarefa. 

O site para participar das pesquisas do grupo é http://www.trackyourhappiness.org/. Killingsworth MA, Gilbert DT (2010) A wandering mind is an unhappy mind. Science 12;330(6006):932.