Heróis de verdade

Quando eu tinha lá pelos três, quatro anos, achei uma boneca no pátio do prédio. Voltei para casa ofegante, de posse da minha descoberta. Qual não foi meu desapontamento quando minha mãe me comunicou que o brinquedo não me pertencia e que, exatamente por isso, deveria deixá-lo onde o encontrara; a proprietária da boneca certamente retornaria para buscá-la. Ah, mas eu achei, mas isso e aquilo outro... Devolvi a boneca. Se a dona do objeto ou uma outra criança instintivamente convencida de que achado não é roubado o pegou, eu não sei. Fato é que pouco tempo depois foi minha a vez de esquecer uma boneca no pátio. Assim que me dei conta do vacilo, corri para reavê-la. Diante da minha zanga por não encontrar a boneca onde eu esperava que, em retribuição ao prévio gesto de honradez, a tivessem deixado, mamãe me disse apenas para continuar a fazer a minha parte. A boneca jamais apareceu. Já a grana do restaurante japonês...


Segunda-feira passada, os moradores de rua Rejaniel de Jesus Silva Santos e Sandra Regina Domingues entregaram um saco com cerca de R$ 20 mil em dinheiro à polícia. Não se tratou de propina, doação à carcerária, rendição ou arrependimento por algum crime. Os dois acharam a vultosa soma na rua. “A minha mãe me ensinou a não pegar nada de ninguém.”, explica o maranhense. O trabalho da polícia elucidou o enigma do tesouro perdido: em fuga após um assalto a um restaurante japonês em São Paulo, os bandidos largaram o dinheiro numa calçada. Sandra deu fé do pacote e Rejaniel não titubeou: abdicou de uma fácil e indevida apropriação. Foi assim que os dois ensinaram a uma multidão de brasileiros como agir com o que não lhe pertence e também a olhar com mais respeito para os que, por circunstâncias adversas, foram parar nas ruas. Salvaram, além da pátria dos donos de um restaurante cheios de contas a pagar, a esperança já debilitada de quem anda descrente do ser humano. Em tempo de fúteis astros do trash e do pop, Rejaniel de Jesus e sua mulher Sandra Regina, remunerados com cerca de R$ 15 por dia pelo trabalho como catadores de produtos recicláveis, são heróis de verdade. Eles nos restituíram algo muito além dos vinte mil que recuperaram. É fácil fazer caridade com restos, livrando-se de sobras. Entregar à polícia, por uma questão de respeito ao que é do outro, uma quantia mais de mil vezes superior ao que o que se ganha por dia é de uma honestidade desconcertante. Num mundo ideal, não haveria assaltos, Rejaniel não moraria com sua mulher debaixo da ponte, uma pessoa devolver tal quantia não nos surpreenderia. Por sorte, o mesmo mundo tão distante da perfeição tem também um milagre que desponta onde menos se espera; tem Rejaniel, Sandra e mães que treinam seus filhos pelo caminho correto para que eles não se percam mesmo quando a vida se torna por demais incerta. Tem ainda gratos donos de restaurante japonês que oferecem a um casal de benfeitores emprego e apoio para que reergam suas vidas. Desse modo, a história de Rejaniel entra nos eixos e [quem sabe muito em breve] ele alcança condições de vida à altura de sua dignidade. Ele não vê a família no Maranhão há cerca de seis anos, quando saiu para trabalhar com o irmão na construção civil. Ah, mas a notícia corre; essa mãe deve andar orgulhosa do filho!