O Brasileiro


O brasileiro carrega em si um bom punhado de temperos. Traz no corpo o sumo do branco, do índio e do negro. Só um Brasil para comportar a poesia de Cartola e de Vinícius, os contrastes mais improváveis, os brancos mais pretos e os pretos mais brancos. O brasileiro acende vela para todos os santos; não rebaixa credo algum. Mescla de tudo um pouco não por frouxidão de caráter, mas por absoluta falta de cartilha e de arrogância. O brasileiro não se milindra com pouco. Encontra graça na desgraça e paz no burburinho de uma confusão. Releva o mal de hoje numa resignação matreira, malandra. Acertou-se com o tempo; seu país será sempre o País do Futuro. Não porque o brasileiro se esquive do presente, mas porque o futuro será inevitavelmente mais bacana. Ordem e progresso é apenas mais uma ironia desse povo sabido a ponto de rir de si. O brasileiro é de uma fala mansa de evitar encrenca. Carrega um peito aberto e mãos estendidas a todo amigo. Esbanja uma empatia que por vezes transveste a realidade em tez de mentira branda. O brasileiro não é de esmurrar ponta de faca. Desliza com a vida, improvisa com o que ela lhe reserva. Segue no passo sem impor seu ritmo a ninguém. Caminha pelo globo com um sorriso no rosto, sempre muito atento ao que se passa. Veio ao mundo deprovido de idéia precisa do que encontrar, munido somente do faro para o melhor entre o que há de bom. O brasileiro oscila na corda bamba sem reclamar nem perder o rebolado. Está com a vida. E quem com ela está... só pode é se dar bem! Ê brasileiro, não fosses tão moço, te tomaríamos por sábio. Só que esse rótulo te pesaria, massacraria a tua afável leveza. Então segue, brasileiro, na liberdade da tua pose de bobo, no gracejo dessa astúcia tolerante e discreta, prudente guisa de viver bem.