Pirataria Social (1/4)

A ficção é um delírio... Vamos de conto só pra variar:


Entrou em casa afogueado e foi direto ao computador. Constatou que somente as mesmas quatro pessoas reagiram a seu último comentário na rede social da internet. Ah, mas o movimento iria aumentar! Quem resistiria a um bom versinho? Na falta de idéias originais, encontrara um livreto de poemas de Carlos Drummond de Andrade que era conteúdo para preencher três anos de frases do dia. Fotos, sim, precisava de mais fotos. Exclusivamente para tal fim montara o estúdio. Não é que naquela brincadeira, mudara de profissão? O conhecimento de computação gráfica acumulado com as fotomontagens o tirara definitivamente da vida de assalariado. Joacélio, agora definido como profissional autônomo, já se fotografara em frente aos Pirineus, em vários cenários de Paris e até na Baía de Guanabara. É bem verdade que com aquele grau de maestria poderia facilmente visitar qualquer lugar, mas Joacélio achou por bem se concentrar no país dos vinhos e dos queijos. Chegou a fazer curso de Francês, que era para ter o que exibir de aprendizado ao retornar de suas viagens. Uma visitação ao Rio de Janeiro ele também falsificou, mas só mesmo porque a cidade, ainda que nacional, era maravilhosa. Para as fotos com gente ele recorria a um esquema interessante. Fotografava os casamentos dos granfinos da cidade, ocasiões em que Joacélio aproveitava para também posar em seu mais imponente terno. Na falta de outras celebridades, pendurava-se ao ombro de empresários e políticos locais. Dia seguinte, tudo publicado na internet. Com a fotografia digital Joacélio ganhava bem. Não se obrigasse a investir pesado em equipamentos cada vez mais sofisticados que o auxiliassem na confecção do pálido álbum de sua existência, andaria perto de realizar uma viagem de verdade. Os amigos internautas se mostravam admirados com as proezas do moço: grande Joacélio! Coisa fina, hein? Tá bem, ô rapaz... Da Parquelândia pro mundo... Finesse! Não pensem que não dava trabalho tirar onda de descolado. Para entrar em toda e qualquer discussão, Joacélio tinha de saber de um só tudo: política, futebol, religião. Além do malabarismo para ficar sempre por dentro da polêmica corrente, Joacélio sofria de um outro problema: seu status de relacionamento. Um rapaz poético, viajado, conhecido das celebridades locais, com 1523 amigos virtuais e nenhum amor? Aquilo não ia bem. E os amigos que publicavam as fotos de seus próprios casamentos? E os que estavam com dois, três filhos? Como competir com as gracinhas dos pequenos? A mentira é uma calça curta; um movimento em falso e a canela fica de fora... Por mais que Joacélio não se conformasse com o minguado número de acessos às suas contribuições para o site, não podia aumentar a frequência das supostas viagens. Precisava era de uma companhia feminina para as fotos! Desgraçadamente, o cidadão andava tão preocupado com o seu próprio sorriso nos registros, que não reparava nas mulheres. Isso até ele deparar com a foto de Herculana.