Pirataria Social (2/4)

A Herculana, que havia estudado com ele no colégio; menininha recatada, mais pra feia que pra bonita; insossa, resumiria Joacélio naquele tempo. A menina franzina encorpara. Não se tornara bonita. Não, não, que exagero! Era bem composta. O que mais chamou a atenção de Joacélio na foto de Herculana foi o cenário. Trabalho de amador logo pra cima de quem? Para a foto ao ar livre, a danada organizou até um ventilador que movimentasse as madeixas; o pano de fundo, no entanto, Joacélio conhecia bem: o cartaz da Torre Eiffel! Ele mesmo já recorrera ao recurso barato num passado remoto. Felizmente, a documentação de suas viagens a Paris evoluíra. As fotografias agora só ganhavam uma paisagem no computador. A arte da transformação da realidade era recurso que ele tão bem dominava que nem mais se dignava a comprar roupas que se adequassem ao outono-inverno europeu. Só que Joacélio simpatizou com Herculana. Enxergou em seu amadorismo um certo potencial. Teve vontade de proteger a bichinha. De todo ruim a foto não era! Somente alguém iniciado na arte da pirataria social poderia reconhecer as simpáticas falhas do retrato de Herculana. Nada menos que 54 internautas elogiaram veementemente a foto em Paris, que por sinal integrava uma série, Paris, je t’aime!, à qual pertencia também o registro de supostos familiares e amigos na despedida no aeroporto Pinto Martins. Então havia mais gente envolvida naquela encenação? Joacélio tentou esquecer a farsa de Herculana. Rolou, desinteressado, a página da rede social. Leu tirinhas de humor sobre isto e aquilo outro, elogiou os textos de três ou quatro blogs melosos que não se deu o trabalho de ler, participou de uma enquete sobre seus amigos virtuais; nada tirou Herculana de sua cabeça. Comitiva de despedida no aeroporto? Joacélio riu-se. A sapequinha podia enganar a todos; a ele não. Voltou ao perfil da ex-colega de turma: profissão secretária, estado civil solteira. Através do álbum de Herculana soube que ela estivera também em Paraty. A muito custo, Joacélio identificou, uma a uma, as falhas da montagem na praia. Não que as limitações não fossem evidentes; a qualidade do registro era absolutamente duvidosa. É que a indumentária da moça, mais especificamente, o biquini imitando pele de onça-pintada era minúsculo demais para deixar Joacélio em paz. Não tirava os olhos de Herculana. Ele repassou todas as fotos da donzela, as com roupa e as quase sem. Bem capaz de a imagem de seu corpo ter sofrido algum retoque, mas não havia de ser muito. Ela não possuía tal grau de refinamento técnico. Estado civil solteira, checou uma outra vez Joacélio. Saiu da frente do computador. Comecou a ler o livro de Drummond. No esforço de se passar por culto ele começava a gostar realmente de poesia. Poesia?! Tinha era de se arranjar com Herculana, a mulher sob medida para os seus devaneios, a companheira com a qual revolucionaria o universo da encenação pessoal.