Pirataria Social (3/4)

Fariam de suas vidas uma só e a comentariam publicamente em todos os instantes. Existiriam no imaginário coletivo como o casal mais visivelmente feliz! Joacélio observou-se no espelho e decidiu: seu sorriso combinava com o de Herculana. Precisava contactá-la, usar a frase que a laçasse de vez. Poderia mandar uma mensagem privada, mas Joacélio jamais investiria seu tempo em algo que não gerasse uma onda de reações, nem mesmo por motivação de foro estritamente íntimo e absolutamente pessoal. Seu primeiro impulso foi o de se sair com algo do cunho de Meu Deus, que gata!, porém a foto de Herculana em pouca pele de jaguar já contava com dezoito comentários de tal natureza. Talvez fosse melhor elogiar a foto de Paris. A troca de experiências de uma viagem em comum é sempre bom mote para um encontro. Não! Precisava de algo mais forte. Joacélio resolveu provocar. Denunciaria que tudo não passava de computação gráfica de quinta categoria. Poderia escolher qualquer uma das fotografias suspeitas, mas acabou optando pela dita pose sensual com biquini de oncinha. Foi curto e preciso: Muito boa a fotomontagem! Não houve tempo de Joacélio se arrepender pela acusação. A resposta de Herculana foi imediata; não publicamente, mas como mensagem pessoal: Tão boa quanto as suas? A pergunta lhe caiu como um elogio. Seria blefe ou Herculana reconhecera mesmo os seus truques? Como todo bom jogo de sedução, este se deu pelo mistério: farpas daqui, desafios de lá e um encontro no bar da esquina do trabalho de Herculana para tirar todas as teimas. Joacélio constatou que Herculana, valorizando a sua própria figura acima de qualquer paisagem, tinha de fato adquirido proporções que necessitassem de mínimos retoques. Natural, pensou. Para agir com ares de poeta, também ele aparara as arestas do seu Português ruim. Os futuros retratos seriam mais que perfeitos: Joacélio cuidaria do panorama; Herculana, das caras e bocas. Quem sabe ele não entraria numa academia e perderia uns quilinhos naquela história? Interrompeu o devaneio com a concreta proposta de uma viagem. Debateram um bocado sobre os possíveis destinos. Joacélio era afeito a cenários europeus, Herculana, às praias cariocas. O compromisso foi um paraíso cearense. A praia de Jericoacoara estava a apenas seis horas de distância, mas o casal não era de encarar a estrada. Seria na intimidade do estúdio de Joacélio que a viagem se daria. Afinal o encontro tinha o pretexto de mostrar à moça os recursos fotográficos de que ela tanto carecia. Joacélio, que não era bobo, nem havia esquecido a imagem de Herculana em traje de banho um segundo sequer, indicou, de passagem, a necessidade de vestuário adequado. Todas as fotos ficaram magníficas, mas ele arrebatou mesmo a sua musa foi com o retrato dos dois deitados na rede dentro da Lagoa Azul. Que proeza! Que genialidade! Enquanto Herculana suspirava pelo engenho de Joacélio, este se deliciava com as poses por ela sugeridas.