Sonhando alto

Rafael avaçara no cumprimento das metas. A festa de casamento com Suélen fora um sucesso, assim como a entrada no programa de financiamento do apartamento e o concurso da prefeitura. O plano de originar três molequinhos também já estava em execução. A natureza andava resistente, mas eles insistiam. Tudo na vida era questão de persistência, ou melhor, de paciência. Ele era paciente; principalmente com Suélen. O temperamento em forma de mulher desafiara a sua fama de grande realizador de objetivos pessoais. Acusara-o de sonhar baixo. Sonhando tão baixo - dissera-lhe a esposa - qual o risco de algo sair errado? De pronto, Rafael relevou a agressão de uma fêmea nitidamente transtornada pelo desarranjo hormonal que antecede a menstruação. Suélen não desconfiava da origem da própria amargura, ao contrário de Rafael, que seguia as flutuações do ciclo menstrual da companheira com precisão meteorológica. No exato instante em que a mulher quase o chamou de covarde, ele soube que Suélen não engravidara. Teriam de intensificar os trabalhos. A fêmea atacou sem intenção de provocar maiores desastres e, na sequência, caiu no choro. Rafael tentou varrer a punhalada para debaixo do tapete, mas os dissabores fermentam no estômago de quem engole calado. Tivesse atracado-se com Suélen, puxado-lhe os crespos cabelos, estaria tudo resolvido. Fingiu que a pergunta não lhe dizia respeito, aí o resultado: uma úlcera a reabrir muito em breve. Um mês depois, a pergunta ainda o maltratava. Sonhava mesmo baixo? E que diabo de sonho alto ela tanto queria? Se sonhasse alto, concluiu, não se casaria com Suélen. Pôs o comprimido de antiácido na boca. Sem a mais vaga desconfiança de que as cáusticas palavras do mês anterior ainda reverberavam em Rafael, Suélen abraçou o marido. Apoiado na pia da cozinha, ele rejeitou a aproximação; desatou os braços da esposa:

» Você tem razão; eu sonho baixo mesmo! Tivesse sonhado alto, tinha arranjado mulher melhor.«
» É verdade, Rafael Siqueira Figueiredo Peixoto! Veja só a tragédia de quem sonha alto. Eu, que sonhava casar com o Tiago, me arranjei logo com quem? Ô desgraca!«

Por mais que em sua geração quase não coubessem tantos Tiagos, Rafael rapidamente identificou o agora declarado rival do passado. Suélen falava do melhor amigo do marido. Rafael não respondeu. Pelo azedume das palavras da esposa, logo derretida em lágrimas, apenas lamentou a forte indicação de que seu primeiro rebento ainda não estava a caminho. O jeito seria medir as variações de temperatura da fêmea e programar melhor as fertilizações. O mês seguinte registrou um Rafael mais silencioso do que de costume. A esposa, cabreira com a exponencial sanha do cônjuge, lhe foi deveras delicada. Na cozinha, onde os pensamentos pareciam tomar melhor forma, o rapaz se lembrou dos tempos de faculdade, do encantamento de Suélen por Tiago, do quanto se esforçara para ganhar alguma atenção junto à mulher. Pobre Suélen - constatou - teve de se contentar logo com quem?! Alivou-se ao eleger a esposa como a grande infeliz da história:

» Ô Suélen, é melhor sonhar baixo do que com o que não se pode realizar.«

Dada a refratariedade da reação, a moça não soube de imediato a que o companheiro se referia. Ele especificou:

» O que é que você tanto vê no Tiago?«
» Ah, mas você ainda está nessa? Deixa de besteira homem de Deus! Nem de mulher o Tiago gosta!«

Antes mesmo de se perguntar como jamais desconfiara da real orientação sexual de seu melhor amigo, Rafael contou os trinta dias passados desde o último dissabor conjugal. A jovialidade da mulher não condizia com a costumeira labilidade emocional dos dias de... Certo de que Suélen finalmente engravidara, o futuro pai vislumbrou uma criatura capaz de sonhar à altura exata do que pudesse alcançar, e, sobretudo, repleta da agilidade materna. Filho homem, sem muitas oscilações de humor. Abraçou a amada.