Antes nunca

Nunca escrevi diários; não gosto de dar satisfação. Falta-me disposição para contar o que vejo, dizer por onde ando; até para mim mesma. Prefiro guardar as memórias no cabuloso aterro de meu inconsciente, deixar que se transformem em um bom adubo do qual hão de florescer expressões em forma de coisa outra que não escancaradamente eu. Se este blog é repleto de observações pessoais é porque, em um processo disseminado e corriqueiro pelo qual não respondo, delas surgem as crônicas. Expondo pensamentos - dirá o nobre leitor - tu te desnudas mais do que em quaisquer sorrisos em fotos de festas, ou em dizer-nos o que comeste hoje no café da manhã. Como boa advogada que não me tornei, concordo, apenas para ganhar o tempo de introduzir meu argumento de defesa. Ei-lo, em forma de confissão: falar da minha vida sempre foi um pretexto para escrever. Quando timidamente comecei a compartilhar meus alfarrábios, acreditava que afirmações categóricas só me seriam permitidas acerca da minha pessoa. Ainda evito falar da vida alheia, pelo menos explicitamente. O que mudou com o tempo foi a quase extinção da já indisposta vontade de falar de mim. Do que eu decididamente não me livro é da necessidade de escrever. É um comichão que se me impõe e, exatamente por isso, não me agrada. Por absoluto esgotamento das minhas forças, começo a deixar as coisas rolarem. Sim, tudo sempre se desenrolou sem a minha anuência; a única diferença é que parei de remar contra a maré. Ó existência repleta de graças: posicionei-me a favor da correnteza; e não avanço uma braçada sequer! A literatura de ficção parece não abrir seus braços a escritores fora de forma. Há cerca de vinte dias (o post anterior não conta), não redijo textos outros além de e-mails e documentos relativos a obrigações profissionais. Semelhante aos demais no que se refere à facilidade com que se perdem por entre os dramas do próprio perímetro umbilical, eu partirei da minha verdade. Tatearei o muro que cerca a realidade até reencontrar a passagem secreta para o universo ficcional, terreno aprazível ao exercício da mentira permitida. Então vamos lá! Descobri algo fantástico: um belo dia precisarás de dinheiro e, para consegui-lo, terás de desempenhar alguma tarefa em benefício dos demais. Exatamente daí tirarás o teu sustento. Bem ridículo uma criatura levar 28 anos para entender isso, não é? Antes nunca do que assimilar tão tardiamente que os meus planos de só estudar e fazer o que me dá na telha são incompatíveis com uma existência neste planeta. O meu tio que é (teoricamente) esquizofrênico e demonstra uma preocupação irritante com a minha situação financeira tenta, há anos, me comunicar isso. Já o meu tio perfeitamente saudável deixou comendo poeira a sobrinha que, há três anos, conduz experimentos incapazes de desvendar a fisiopatologia da esquizofrenia, mas que lhe renderão, muito em breve, um título de PhD em neurociência cognitiva. Ele afirma: doido é quem come merda e rasga dinheiro. Seu irmão nunca fez nem uma coisa nem outra, mas eu já comi cocô... Quando bebê, mas comi. Entendes agora o meu receio de pôr as mãos em dinheiro? Pronto, comecei a inventar! É mentira, eu não comi merda não. Minha psique está fora de suspeita e as elásticas associações mentais voltaram à ativa. Ficção, já fiz as árduas (re)flexões: estou pronta para a partida! Ela há de vir abrir a porta, não? Porque todo texto confuso merece uma frase que o resuma, provando toda a sua prolixidade e irrelevância, direi apenas que estou, finalmente, virando adulta. Antes tarde; antes nunca.