Ai, Pai, se estais no céu!


O mexerico não é regalia do nosso tempo. Quando Deus elaborava sua primeira oração, um acessor já o atarantava com observações.
- Pai nosso que estais no céu?
- Sim.
- Não seria melhor onipresente?
- Onipresente?
- É onipresente ou não é? Pai nosso onipresente, ora pois! Não! Melhor: onipresente pai nosso. Adjetivo antes do substantivo soa sempre mais erudito. Vede só que maravilha: onipresente pai nosso, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino...
- Aí está!
- Agora eu não entendi.
- Só o reino do pai que está no céu pode ir a vós. Corta onipresente; volta Pai nosso que estais no céu.
- Tudo bem, como quereis... Então prosseguis: seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
- Justamente.
- Terra e céu o tempo todo é muito cansativo.
- Trata-se de uma alegoria.
- Alegoria? Essa gente ainda crê que a Terra é quadrada, senhor! Pensarão que repousais sobre uma nuvem...
- Não te angusties. Dá ao povo o tempo de descobrir a natureza.
- Ah dou, mas depois não dizei que não vos alertei...
- Algo mais?
- O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
- Essa é boa, não?
- Certamente,  senhor Deus… Se não desse tanta margem para especulação.
- Especulação?
- Seus adversários vão cair em cima... perdão, senhor! Vão... Como é que se diz... Aproveitar essa brecha.
- Que brecha?
- Às vezes me surpreendeis com tanta inadvertência, senhor dos senhores! E o dia de amanhã?
- Como me diverte a doce arrogância dos humanos! Aí é que se esconde a sutileza! O pão nosso de cada dia nos dai... Hoje.
- Qual o truque?
- Não percebes? É a confianca na previdência. Nada de pão nosso para depois de amanhã! Um dia de cada vez.
- Não sei não. Prevejo muita agiotagem em cima do preço do pão de amanhã. Mas o senhor é quem tudo sabe... Continuo?
- Por favor.
- Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
- Agora qual é o problema?
- Nenhum. Pensais que só sei criticar? Realmente brilhante a última frase! Longa; porém divina. Não nos deixeis cair em tentação… Pronto, chegamos ao trecho que tanto queria. Aqui heis de ser mais específico, ó grande e única Divindade. O que seria uma tentação?
- Ah, faze-me o favor!
- Não quereis especificar, não especifiqueis… Mais livrai-nos do mal!
- Qual a objeção agora?
- Nenhuma. Essa foi a parte de que mais gostei… Juro.
- Ótimo.
- Só que está faltando algo.
- Faltando o quê?
- Um grand finale... É, Deus, uma frase de impacto, que é para a oração grudar na cabeça das pessoas.
- Por exemplo?
- Ai se eu te pego!
- Ai o que, rapaz?
- É isso: ai se eu te pego! Um refrão com essa frase é sucesso garantido, meu bom Deus!
- Que Ai se eu te pego, que nada!
- Mas Deus… 
- Procura outro grand finale.
- Amém!
- Amém? Amém... Amém... Gostei! 
(silêncio)
- Qual a questão agora?
- Aqui não nos é possível dar vazão à criatividade. É tudo sempre só como Deus quer... Quem sou eu para discutir vossas determinações, mas o meu verso, ó Altissimo, é bom! É bom não... É ótimo! Se permitísseis, minhas palavras cairiam na boca do povo.
- As palavras a “cairem na boca do povo” são minhas, não tuas!
- Sim, claro, claro.
- Façamos o seguinte: se, em 2000 anos, talvez até um pouco antes, o povo ainda rezar o Pai Nosso, encarnarás no sul da Bahia.
- Onde é a Bahia?
- A Bahia é um estado de um grande país que ainda há de surgir. Lá farás teus versos à vontade.
O acessor retirou-se. 
Ia animado, elaborando uma estranha coreografia.