Amigos em ação


Eu já estou de saída. Procurei Vando com o intuito de apresentar meu trabalho e ouvir bons conselhos. “Você não vai pintar comigo?” é a pergunta de Vando Figueirêdo que me faz dar meia-volta. Começo a captar a generosidade do grande artista diante de mim. Amigos em ação, anuncia a camisa que ele me empresta para a nossa primeira aula de arte. Eu ainda não desconfio que já trago na blusa o títuto do prólogo do livro sobre a trajetória de Vando Figueirêdo. 
Um artista se revela através de suas obras. A mim ele se revelou primeiramente através das incríveis colagens da série Diamantes, um primoroso diálogo de Vando Figueirêdo com a arte de todos os tempos. A jornalista Ian Gomes, querida amiga em comum, já me falara a seu respeito. Prestes a voltar a morar em Fortaleza – talvez eu deva esclarecer que sou médica com a excentricidade de dedicar minhas horas vagas às letras e às artes plásticas – tomo a coragem de entrar em contato com Vando. Qual não é a minha surpresa ao descobrir que ele já conhece o meu trabalho! Grande incentivadora de minha arte, Ian Gomes já lhe havia mostrado os quadros da amiga cearense “de Berlim”. Vando demonstra respeito pelo meu trabalho, e, sobretudo, paciência para com minha indecisão entre o desejo de retratar e o de remediar o drama humano. Ele já pensou em ser médico. Fará um retrato meu e me quer de olho na tela. Descortinará seu processo criativo e faz questão de que eu veja tudo. Apareço logo nos primeiros traços, que ele logo perde. Não, ele não perde; ele me deixa ir, mas eu volto. Eu sempre volto. É o desapego de Vando para com a sua arte que a faz tão rica. Não se trata de congelar um corpo em um retrato. A tela ganha os reflexos de minha imagem em seu espelho. A tela é o seu retrato através da minha imagem. Inquieto, Vando busca a melhor forma de expressão. Ele não quer escondê-la. Nem a expressão, nem a busca. “A arte é livre.” A liberdade de ir e vir que Vando dá aos traços é a primeira lição. Aliás, a segunda. A primeira foi a de simplicidade. Vando mede o talento de um artista pela coragem, pelo traço, não por aplausos. Diz que reconhece em mim um estágio pelo qual já passou. Eu suspeito que ele se reconheça em todas as pessoas. Vando brinca. Cria, recria a minha fisionomia, sua expressão. Teresinha Olivier, a fotógrafa da noite, arregala os olhos cada vez que Vando se despede de um traço meu. Aos poucos ela se acostuma. É tudo parte do show. Como as várias fases do trabalho de Vando Figueirêdo, as muitas imagens que se projetam na tela ao longo do caminho também estão presentes na última versão. Vando não é um artista de uma tela só; é um artista de todas as telas. A pintura de Vando Figueirêdo – um pintor que não vê nada, nem mesmo o seu trabalho, em isolamento - liga sempre a figura central ao todo. É a arte que extravasa por Vando. Ele se sabe instrumento, se declara engolido pela arte. E é entre pinceladas que a vida apronta mais uma das suas. Ela me leva ao pintor para me revelar escritora. Sem ler uma única linha de minha autoria, Vando me dá a incumbência de escrever o seu livro. Já no dia seguinte nos encontramos em seu ateliê para discutir o projeto. Vando recebe a visita de Inez Figueiredo. Ele me explica que ela é um dos maiores nomes da nossa literatura atual. Inez se despede, levando consigo uma das telas do artista e uma pergunta me corrói. Por que é que ela não escreve o livro do Vando? “Porque eu não pedi a ela; eu pedi a você.” É mais uma do Vando professor. Está mais interessado em me dar a chance de aprender através da sua imersão na arte universal do que pôr o livro em mãos experimentadas e competentes. Vando me convida a uma viagem de descoberta, uma travessia da caverna da ignorância em relação ao mundo da arte rumo à luz do Sol. É a busca da beleza além do visível, uma peregrinação que conta com o brilho de mestres das artes plásticas de todos os tempos, mas também com a angústia e o talento de Vando Figueirêdo e artistas de seu tempo. É também a segunda grande oportunidade que ele me dá de fazer o seu retrato, um retrato de toda a arte que tranborda por ele, a arte que Vando irradia. O livro, além de dissecar a vida e a obra de Vando Figueirêdo, tem como objetivo trazer ao grande público noções básicas de arte. Estudiosos e amantes da arte em geral encontrarão nos francos relatos do notável artista plástico brasileiro uma deleitosa fonte de informação, contemplação e entretenimento.
 

Projeto anunciado! Agora é rebolar para dar conta do recado.