Ora mas!



Esta postagem está mais para uma jaculatória, reza introvertida que me salve, me resguarde do pessimismo e de toda e qualquer vacilação. É que o anúncio do meu sincero interesse em voltar a viver no Brasil levantou uma onda de reações contrárias. Em respeito ao leitor, também brasileiro, eu suponho, menciono apenas uma das muitas declarações que bombardearam meus ouvidos desde que cheguei a Fortaleza: O problema do Brasil é o povo! Okay... Agora vem cá, eliminando os brasileiros, onde é que vai parar o Brasil? Ameaçado que está o tal orgulho de ser brasileiro, o jeito é congelar a porção ainda intacta do meu otimismo, registrando algum entusiasmo por meu país de origem. Sei que o Brasil anda longe de ser um paraíso sobre a Terra e que, por ora, a população de grandes cidades brasileiras se arrasta apavorada por ruas que mais parecem veias varicosas, de circulação lenta. E a desigualdade social? É tão visível, que ninguém acredita! Eu não sou cega, apenas morei uns bons anos na Alemanha e agora acho muito estranho ter de me explicar mais exaustivamente do que quando fiz a migração em sentido contrário. Afinal, uma brasileira regressar ao país é fenômeno mais que intuitivo. E olha que não estamos falando de um país qualquer; o papo aqui é sobre o Brasil, uma das nações mais carismáticas do globo! O pequeno rebuliço é só porque deixo de lado alguns destinos atraentes para insistir no firme propósito de voltar. Então a hora é de bater o martelo: eu tenho o direito de residir no Brasil, ora mas! Deu vontade de voltar a conviver com o povo brasileiro, de suar no calor do Nordeste, de falar Português. Encasquetei de por frente a frente o Brasil que parece só existir na minha imaginação e o Brasil real. Se, no processo de reaclimatação, eu um dia pender para as garras da indústria do medo e do complexo de inferioridade tupiniquim, retornarei a este texto. Ele é um compromisso, um bilhete de aposta no país. Neste momento, eu não encontro desafio irresistivelmente maior que voltar a morar no Brasil. Maior quiçá somente o de arrancar dos fortalezenses os pontos positivos da vida na cidade... mas eu vou até bem! A lista já conta com a simpatia e extroversão do povo, a praia, o céu, o sol, os peixes, a farofa, os sucos de fruta, o convívio com a família e os amigos, as muitas oportunidades de trabalho e tudo o que ainda há de melhorar. O último item é a boa e velha esperança, intuição de progresso, que, cutucando, a gente encontra até nos que andam a reclamar.