Algum sossego

A úlcera cavou-lhe o estômago e, ainda que não desconfie, o cancro já se instalou em dois órgãos deveras distantes um do outro. Para completar, o pobre do entendedor sofre as dores da cruz. Entre os ombros e o pescoço, carrega o peso do mundo que em vão insiste em compreender por inteiro. O entendedor quis apenas subir no ombro de Deus e de lá, em um instante, captar tudo. Apostou na arrogância de transcender sua condição humana, mas aperreou-se. Pensou e até iludiu-se; quase sentiu que sabia. Em tempo, chegou-lhe o tormento que a seu lado caminhará para todo o sempre: jamais assimilará tudo. A dúvida lhe fará companhia; o tempo rirá de suas pretensões; o bom-senso lhe dirá que não é bem por aí; a curiosidade, que não é o bastante. Tão bobo o entendedor também não é. Percebeu o porquê de tantas... Bem, o entendedor meteu-se a escrever poesia:  * * * Canções de amor // A gente escuta, escuta // Mas a gente não entende // A gente não ama * * *  Cá entre nós – paciência que o entendedor em breve alcançará por si só - tudo o que ele pode e sabe, tudo o que lhe cabe é simples como aprender a amar. E ele não consegue! Ah, entendedor, aqui uma colher de chá: Se meia palavra não te basta, desfaz a ruga no meio da testa, segura a mão do contemplador e deixa a vida te conceder algum sossego.