O delicado trabalho de consultório



Este conto vai para o Dr. Flávio Sidou, que sempre estimulou minha participação em concursos literários:

Tarcício checou a agenda do dia. Dez pacientes pela manhã. Para coroar o turno de trabalho: dona Ana. Por que é que ela sempre escolhia o último horário antes do almoço, o bendito momento em que o estômago e os neurônios de Tarcísio agonizavam de inanição? Trouxesse alguma doença grave, risco de morte iminente, mal curável ou incurável, o médico teria mais paciência, mas a sexagenária vinha era repleta de coisa nenhuma. Não havia sequer psicossomáticos sintomas que se  pudessem classificar. Cabe mencionar que a nobre dama era mãe de três médicos, todos urologistas. Tarcísio entendia bem o porquê. Tivesse convivido com senhora de tal natureza em sua própria casa, jamais atinaria de fazer Clínica Geral. Dona Ana não sofria exatamente de hipocondria. Ela não acreditava padecer de doença grave, não relatava medo irracional da morte, não mostrava jamais descrédito para com os diagnósticos do clínico. Tinha mais era um curioso prazer em se deixar examinar com todos os métodos disponíveis, como se, através de sua interessada perspectiva, diligentemente avançasse no estudo da profissão médica. Com advento da internet, dona Ana pesquisava cada vez mais a fundo as doenças. A exclusão de todos os impossíveis diagnósticos aumentava, pouco a pouco, o grau de conhecimento da paciente. Entendia cada vez mais de Medicina. Tarcísio já não mais refreava os jargões do ofício na comunicação com a paciente mais aplicada. Enumerando as patologias excluídas por cada um dos exames invariavelmente normais de dona Ana, expunha as linhas de seu raciocínio médico. No começo, ele resistiu. Não faria exame algum em uma criatura, exceto pelo deleite em investigar a própria saúde, absolutamente normal. Dona Ana insistiu. Apoiou-se na necessidade de exames de rotina, que faria de muito bom grado. Nem os planos de saúde podiam limitar a sofreguidão por cuidados médicos. A pensão de dona Ana cobria, com folga, os custos com exames e consultas particulares. Tarcísio a encaminhou diversas vezes a colegas especialistas, mas ela sempre retornava:

01

            » Dr. Tarcício, esses especialistas não sabem de nada!«
            » Sabem, dona Ana!«
          » Não tô dizendo que não sabem?  O senhor é que é o meu médico e é com o senhor que vou me atar.«
            » Mas dona Ana, a senhora não tem nenhum problema de saúde. Por que é que a senhora não vai para casa? Melhor, por que não vai viajar, aprender Japonês, ou mesmo prestar vestibular para Medicina?
            » E a minha saúde, Dr. Tarcísio? Não, não posso... Alguém tem que cuidar dela!«
         Tarcísio se viu obrigado a limitar as visitas da matrona. Mais que uma vez por semana ela não poderia aparecer no consutório.
            » Dona Ana, existem pacientes doentes de verdade, que precisam ser atendidos.«
            » O senhor acha que estou inventando sintoma?«
            » Quais são os seus sintomas, dona Ana?«
            » No momento, nenhum, mas a gente tem que permanecer vigilante, doutor!«
            » A senhora concorda que o seu bem-estar não pode prejudicar o dos demais? Tem gente na fila de espera por uma consulta, dona Ana…«
         O argumento do médico a convencera. Somente às sextas-feiras, a menos que algum inoportuno feriado antecipasse a consulta, marcava presença no consultório. Todo mundo caía enfermo; só ela não. Tamanho vigor abismava Tarcísio: tanta oportunidade de adoecer e a mulher não apresenta uma gastrite, um problema de vista, de circulação, nada! Não obstante a boa saúde, dona Ana seguia com a caça às doenças. O médico se sentia um pouco culpado de participar da investigação, mas por mais excêntrica que fosse, também dona Ana poderia ficar doente... Não, Tarcísio não lhe negaria consultas. Às 9h30, os pacientes começaram a entrar no consultório. As queixas e solicitações variavam: controle de medicação, dengue, uma outra virose, diabetes, pedido de vermífugo, atestado de aptidão física para o colégio, investigação de processo alérgico, um caso de enxaqueca com aura, um de doença autoimune, e dona Ana. Sorridente, trazia debaixo do braço os resultados da última bateria de exames.  

02

Sem qualquer entusiasmo, Tarcísio pegou o papel. Valores certamente melhores que os seus, antecipou o médico. Seria o segredo de tanta saúde justamente essa preocupação toda? Interrompeu a meditação para conferir os resultados:
            » Dona Ana, de quem são estes exames?«
            » Meus.«
            » A senhora não deu para falsificar exame agora, deu?«
            » Que é isso, Dr. Tarcísio?!«
            O médico permaneceu em silêncio.
            » É grave, doutor?«
            » Dona Ana, a gente vai ter de investigar uma possível leucemia.«
            » Uma anemia? Ah, mas que bobagem!«
            » Eu disse leucemia, dona Ana.«
       Não adiantava. Por mais que Tarcísio explicasse, dona Ana não se referia ao diagnóstico correto. O clínico não compreendeu a reação. Não procurava tanta doença? Por que negá-la quando uma finalmente se apresenta? Tarcísio encaminhou o caso a uma colega hematologista, mas pediu autorização da paciente para conversar com um de seus filhos. Não estava seguro de que dona Ana realmente o compreendera. O diagnóstico se confirmou. No consultório do Dr. Tarcísio, a senhora  não mais apareceu. O médico passou a acompanhar a evolução do caso dos bastidores. Era uma leucemia difícil, que requeria exames além dos que dona Ana estava acostumada a realizar. Para complicar, a ex-paciente se recusava a cooperar com o tratamento. Quem antes se dispunha a embarcar em tudo o que a Medicina propusesse de repente se mostrava avessa a toda a parafernália médica. Intrigado com o estranho comportamento, Tarcísio reavaliou a própria conduta. Dona Ana não desejava doenças, mas repetidas provas de sua boa saúde, exames, boas notas, parabéns... Errara no diagnóstico e na conduta! Precisava fazer uma visita domiciliar:
            » Dona Ana! Não apareceu mais lá pelo consultório… Como é que a senhora está?«
            A dona da casa se negou a esboçar resposta.

03

         » Eu vim aqui dizer para a senhora, que além da Dra. Amélia, a hematologista, também eu cuidarei da sua anemia.«
            » Anemia?«
            » Sim, senhora... E das brabas! «
            Dona Ana sorriu.
        A partir de então, no trato com tão delicada paciente, leucemia atenderia por anemia. Já que a simples permutação de palavras bastava para restabelecer o elo com a antiga paciente, Tarcísio cometeria o sacrilégio. Dona Ana tornou a procurá-lo com frequência. A terapia contra a doença não se alterou; se é que tão sutil mudança de conduta não constituía, de certa forma, uma evolução no tratamento.

04




O delicado trabalho de consultório

Conto selecionado pelo concurso Histórias de Trabalho 2012, promovido pela Secretaria da Cultura de Porto Alegre. O livro Histórias de Trabalho (Editora da Cidade), uma coletânea de textos e fotografias de diversos autores, foi lançado na Feira do Livro de Porto Alegre.